
Carta a um amigo distante
Meu queridíssimo amigo,
Pudesse eu contar uma novidade surpreendente deveria começar relatando os dias frios, os dias de cores neutras, que temos vivido na nova paisagem do Rio de Janeiro. Deveria dizer da neve que teima em cair, o quanto temos patinado na Lagoa Rodrigo de Freitas, e das pistas de esqui na Serra Fluminense.
Quisesse eu contar uma novidade diria que seus copinhos de cachaça estão bastante solicitados. Toda a coleção de relíquias, que guarda tantas histórias geográficas e psicológicas, tem sido vigiada por mim e têm feito - os tais copinhos - a felicidade dos visitantes e de certas amigas que passam por aqui. No entanto, posso garantir, tudo gente com pedigree.
Mas, na verdade, a cidade continua igual e é difícil explicar, em uma pincelada só, de que modo a vida parece sempre a mesma. Para mim, no instante em que escrevo, a realidade é uma alegoria onde o que muda é o nosso olhar, nosso desejo, nossa disposição para a felicidade.
Quero agora dizer da minha saudade. E sem nenhuma vírgula, da saudade das nossas madrugadas, e de você, principalmente de você, me conduzindo no ritmo do Jazz-Band. E gosto de lembrar de nós, exagerados e emocionados, deitados no chão aqui de casa ouvindo aquelas músicas, você bem sabe quais, as que não ouso dizer o nome.
Como me disse, na última carta - o amor finalmente chegou! e desta vez foi você que o escolheu. Coisa boa é poder escolher. Aproveite, vá em frente! Mas atenta para as prisões do sentimento, são cruéis, mesmo nas emoções mais intensas, aquelas que deveriam nos elevar para além desta condição terrena. Devemos pensar na brevidade da vida porque não há mais tempo para a infelicidade, deixa que venham as pequenas alegrias porque também não há mais tempo para o desamor, para o que não for grandeza. Não nos resta nenhum mísero minuto, em desperdícios, para sermos quem não podemos.
Meu caro, por minha vez, lhe digo: quero o amor inesperado. Creia, que pode ser doce, e transformador, o inesperado, aquele que não avisa mas chega, não pede licença, mas alegremente entra, a cantar e a sorrir, sem fazer considerações, sem criar ilusões. É real e breve, é a vida, o inesperado amor. É bom, e revolucionário, ainda que não se esforce para ser nada mais do que breve. Não era para ser mas é, o inesperado amor, e a gente acaba por descobrir sem querer, que ele já está. É o nunca antes imaginado, o que não foi sonhado e é real. É leve, criança, etéreo, o inesperado amor, que ama sem critério e adora, pela própria desobrigação de...
Ora meu amigo, acabei por amar a liberdade que nele há. Ele é um anjo barroco de asas enormes que lê os pensamentos da gente. E neste momento ele nos rapta para outros mundos. Preciso te revelar um segredo: essa espécie de amor é, na verdade, não o que ele nos dá mas o que a gente sente por ele, uma paixão silenciosa pela existência.
Estes amores inesperados, livres e breves, não acabam, descansam dentro de nós, nas músicas, no espaço, nas prateleiras, entre os livros que também amamos, nos sobressaltos das lembranças e das memórias. Ele aguarda tranqüilo, ele espera e não tem pressa, ele é o futuro.
Querido, sigamos obstinados o nosso destino, você tão longe, em busca deste Eldorado, nestas terras do sem fim, do outro lado do mundo e eu, por aqui, tão longe, tão perto...
E para nós que somos teimosos e não desistimos, desta mania de sentir, aí vai...
Veste a pele de seda elástica e seja aquele que saiu a correr mundo, atravessou rios afogados, e se sumiu no fundo do mato.
Você me inspira, mítico, como Cobra Norato.
“- Quero contar-te uma história.
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar.”
...“Vou visitar a rainha Luzia.
Quero me casar com sua filha.
...
- Então você tem que apagar os olhos primeiro.
O sono escorregou nas pálpebras pesadas.
Um chão de lama rouba a força dos meus passos.”
...
“...De todos os lados me chamam:
- Onde vais, Cobra Norato?
Tenho aqui três arvorezinhas jovens à tua espera.
- Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.”
O sol deste inverno anda a derreter toda a neve que se instalou na porta da minha casa, pois é amigo, bem vê que por estas terras tudo continua igual, tudo igual de modo diferente.
Beijos Afetuosos,
Cris
4 comentários:
eh tipo meu caro amigo, so que sem o chico buarque e o augusto boal e com mais neve.
ADOREI,
Devemos pensar na brevidade da vida porque não há mais tempo para a infelicidade, deixa que venham as pequenas alegrias porque também não há mais tempo para o desamor, para o que não for grandeza. Não nos resta nenhum mísero minuto, em desperdícios, para sermos quem não podemos.
Muito claro, objetivo e inspirado.
bjus
Liz
Cris querida, poetisa.Muito lindo!
Gostei também do comentário da Liz.
beijos
Essa é a minha amiga Cris,linda poetisa,filósofa e...sem neve fechando a sua porta!
Feliz sol de inverno!!
Bjs
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