O ALTER EGO E A VIZINHANÇA

Tem duas coisas que não se escolhe: filhos e vizinhos. Comparações e dissertações à parte, os filhos a gente educa, ou pelo menos tenta, já os vizinhos...

Ao consultar o manual do bom vizinho passo com louvor no teste do “hall” e do corredor. Tendo como princípio o silêncio respeitoso - onde não incluo as reuniões etílicas com amigas que bebem, riem demais e ainda brigam para ver quem vai falar primeiro - sou adepta dos cumprimentos matinais e nunca faço julgamento moral acerca do comportamento alheio. No que diz respeito aos vizinhos desenvolvi a teoria “deixar passar, deixar viver” e, deste modo, tenho feito amigos.

No entanto, dizem por aí, são as exceções que confirmam as regras...

Desde os primeiros dias da casa nova, me causou estranheza certa figura de corpo muito magro, os cabelos muito longos – quase na altura das nádegas - o jeans muito apertado e o tom de voz que oscilava, entre o baixíssimo e o histérico, de acordo com a hora do dia. Refreei meus instintos implicantes porém o “muito”, quase reacionário, da criatura me incomodava. A talzinha, armada com balde, rodo, desinfetante, limpava diariamente o corredor em movimentos enérgicos e barulhentos enquanto desfiava, com a língua nervosa e aguda, impropérios deselegantes de encontro ao vizinho da vez. Do capacho aos enfeites das portas, dos animais de estimação às criancinhas, ninguém era poupado. Bem, pelo menos ela tinha esta qualidade: ser democrática nos insultos.

Mas chegou um Domingo chuvoso. Neste dia, que pedia somente paz, preguiça e cama, fiz um disque-padaria e fui atendida com prontidão por um entregador atencioso. Ela, a vizinha, fez a gentileza de buscar as compras sem permitir ao rapaz dois passos além da divisa do elevador. Eu, entre satisfeita e paralisada, ouvia as reclamações da individua. Saí resignada da soleira do meu lar a pisar no chão, ainda úmido da limpeza matutina, protegida somente pelas meias de lã e meu pijama de flanela xadrez. Saí solidária ao trabalhador encharcado que, em sua uma humildade servil, se manteve calado, resignado, a espera do pagamento. Pisquei, sorri, me desculpei, dei uma bela gorjeta para compensar o embaraço. Minha budista complacência era colocada à prova. Pensei comigo: vencerei!!!

Para toda tolerância, um limite. E o limite chegou com um suspiro. Já agüentei coisas piores e não cedi aos instintos primitivos mas a mulherzinha atreveu-se a falar da minha mais profunda intimidade, meu prazer, do meu maior tique nervoso, meu direito essencial de me expressar. Ela, em uma audácia desprovida de qualquer senso, ao me ver calmamente fechar a porta, reclamou em tom acima do permitido, do meu único movimento: o suspiro.

A calma virou ira, meu alter ego se manifestava heróico, e ordenei que a magrelinha e suas ferramentas não freqüentassem mais o meu pedaço. Ao contrário do que poderia imaginar, devolvi o bem estar aos outros vizinhos, recebi congratulações entusiasmadas que se estenderam por vários dias e me tornei senhora do meu reino.
Quinze dias após este incidente me mudei de endereço convicta de outra teoria: cada vizinhança tem o alter ego que merece.

8 comentários:

gduvivier disse...

Companheira de Quinta! Arrasou!

Mariana Bradford disse...

Excelente! Adorei o texto e, principalmente, o toque de humor.

:)

Anônimo disse...

Cris, amei!!!!beijos

Anônimo disse...

Cris...Amei!!beijos( o comentário acima é meu.Distraidamente entrei como "anonimo)

Anônimo disse...

Muito, muito bom mesmo!! E, lembro muito bem desse dia. Ai, ai...

Anônimo disse...

Texto divertido e cheio de malícia e humor, da-lhe, estou adorando.
Bjus

Anônimo disse...

Cris,muiiito bom !!!
Bela estréia,mesmo.
Já vi que as 5as.(de ambas as setas)vão ser de arrasar!
Parabéns!
Bjs,
Mari

Anônimo disse...

Cris,eu de novo....
Marquei Outro,mas saiu Anonimo.
Bjs pra vc e pra Cla,
A Mari