SOBRE A QUARTA DEPRESSIVA
OU
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE DORES


Naquele dia ela desceu da faculdade mais cedo. Como em todos os outros até então, na verdade. Seu amigo tinha alguns afazeres pendentes, e ela demorou certo tempo para deixar o campus, esperando ele se entender com os milhares de papéis de História do Pensamento I. Foram cortando a rua em descida também como nos outros dias, e encontraram um punhado de gente conhecida no barzinho em frente - também como nos outros dias. Havia gente das antigas, da época do primeiro colégio. Havia gente conhecida há poucos anos, daquelas que a gente não sabe explicar de onde surgiram e costuma responder com “ah, conheço da vida”. Havia, também, alguns poucos indivíduos desconhecidos com os quais havia trocado ligeiras palavras, ali, na faculdade mesmo.

As pessoas que chamaram a atenção de início foram as mais inesperadas: as meninas da primeira escola, com as quais não falava fazia tempos, exceto em encontros esporádicos pelo bairro. Estavam engraçadas, já mais pra lá do que pra cá, e renderam boas risadas.

Mais gente foi surgindo e novas rodas de conversa se formavam periodicamente, e não há de se negar que ali estava bem divertido. Ao menos era uma fonte de risadas, sejam elas efêmeras ou até mesmo artificiais.

Após algumas viradas de ponteiro, a melhor amiga chegou e tornou tudo um pouco mais ameno. O bar já estava mais vazio, estavam todos de volta ao campus da faculdade, onde acontecia um evento de samba. Foram também. Entre um gole de cerveja e outro, era introduzida uma pessoa nova em sua vida, que provavelmente no dia seguinte esbarraria nos corredores e nem cumprimentaria, ou quiçá se tornariam amigos de uma vida toda. Vai saber...

Mais superficialidade aqui e a acolá, a situação encheu o saco e foram embora: ela, a melhor amiga e mais uma. Andava mais uma vez pela rua que descia, sorrisos por fora e algo embolado por dentro, como se suas tripas estivessem de cócoras, mal posicionadas. Então, de súbito, deu de cara com alguém que não devia encontrar. Não era alguém que fizesse diferença em sua vida, ou alguém com que costumasse falar, mas por algum motivo, lembrança ou alguma palavra dita, não podia estar ali.

Foi então que se deu conta de que passara o dia inteiro enxergando tudo cinza, no máximo em sépia. E quando uma raridade no mundo, um enviado divino, ou apenas uma pessoa normal disse “como você está?” foi que tudo começou a, vagarosamente, tomar cor novamente. Era só isso que ela precisava, já era o bastante.
Mal sabia ela que quando chegasse em casa tudo se desbotaria...









...Como nos outros dias.

3 comentários:

nagual1985 disse...

as tripas de cocoras foi mt genio!
o resto eu nao achei a altura (altura de cocoras).
abraco.

cris braga disse...

Bacana Mariana!Quantas vezes na vida a gente enxerga tudo cinza, no máximo sepia.Nossa, adorei o texto! beijos

Anônimo disse...

Os últimos dois parágrafos estão ótimos, mas o resto do texto é uma tentativa falhada de ficção. Fora isso, concordo que as tripas de cocóras ficaram ótimas.
Beijinhos.