
TARCILIA
Tenho uma tia-avó freira. Muito jovem fugiu de casa, contrariou um pai e três irmãos, abandonou um excelente pretendente já aprovado a marido, e seguiu o destino rumo ao convento. Adotou um novo nome: Tarcilia.
Viajou pelo mundo, morou oito anos no Líbano, foi diretora de escola, fez carreira como educadora, revelou-se excelente mulher de negócios e administradora competente. De olhos vivos, conversa envolvente, e sábios conselhos, ela faz parte da minha infância e da minha vida. Era à lembrança desta figura que minha mãe sempre recorria com inabalável firmeza, ao explicar alguns dos meus traços físicos e detalhes da minha personalidade. Para todas as dificuldades causadas pelas diferenças físicas e psicológicas, entre eu e meus pares de berço, e aos que privam de certa intimidade no meu lar - amigos e afins - mamãe tinha um discurso soletrado. Como se resolvesse uma equação matemática dificílima, minha progenitora com segurança Nobel, fazia soar uma única e enfática frase: “Esta menina é igual à tia dela, a freira”.
Logo em seguida, abastecia o ouvinte com adjetivos elogiosos direcionados à minha pessoa, de modo a disfarçar o lado destoante, minhas manias, pois de qualquer forma, da fôrma que viesse, eu continuava a ser sua filha.
Quando penso em presépio, me lembro da Irmã Tarcila, da congregação do Sion. Penso, com admiração e respeito, naquela mulher que não cedeu. Quando, do alto da minha adolescência, lhe pedi explicações, ela sempre respondeu: “Foi o meu desejo, a minha vocação”. Uma vocação - um ideal - que no início do século, em uma família de imigrantes libaneses, parecia um ato excêntrico. Abrir mão de procriar e povoar o mundo, escolhendo a vida religiosa, se tornou ato de rebeldia.
A congregação sionista tem por princípio o entendimento, o diálogo, o estudo, principalmente entre judeus e católicos. Esta freirinha, que um dia fugiu de casa, falava hebraico e um pouco de aramaico, participava de reuniões animadas entre protestantes, muçulmanos, judeus e católicos e a todos chamava de “meu bem”.
O Líbano me deu descendência e sentimento; Israel trouxe para a humanidade Freud – entre outros cientistas, músicos, intelectuais e pensadores - para mim, em particular, meu primeiro namorado.
Nestes tempos confusos de bombardeios pensar em um presépio, seria dizer que o mundo caminha rápido na solução do que parece difícil: curas, pesquisas, tecnologia, longevidade. Descobertas fantásticas propiciam conforto material, facilidades e a diminuição das distâncias. Sem sombra de dúvida, não estamos mais na idade média, o homem evoluiu. Por outro lado, o bicho-homem ainda arrasta suas mãos e anda a se curvar, a sair da caverna grunhindo, coberto pelas vestes da pior política e fantasias de poder. Mancham uns aos outros com a sombra do vergonhoso terrorismo.
Para milênios de história, política, interesses, qualquer explicação será pouca para os povos que estão a sofrer, e quais sejam as crenças, seja lá ou cá, o lado que estiverem, será o lado da dor. Haverá sempre alguém chorando, órfãos, e desespero. Que solução? Convoquemos os homens inteligentes!
Não quero analisar. Sou muito ignorante para entender. No entanto, de que me serve o conhecimento sem a compaixão?
- Pára esse mundo porque eu quero saltar!
Quero estar naquele presépio, quero a manjedoura, os animais, quero um estábulo, um lugar. Um lugar onde não estejam meu pai, minha mãe, e sim, meus irmãos, quero meus irmãos sem lágrimas...
4 comentários:
Nossa Cris, fiquei emocionada.
Muito lindo!beijos
AMEI
tá maravilhoso
Cris,
Mil desculpas, não pude ir ao encontro. Mas vamos marcar outro? Eu quero muito ir e conversar com todas!!!! Inclusive sobre esse texto, super envolvente!!!
Beijão
Puxa,Cris...que bacana!
Lindo texto indignado-poético,leve-denso,emocionado-emocionante.
E como....
Cada vez melhor!
Falando assim,me lembrei de vinho.....O último foi na estréia de vcs aqui.
Bjs
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