"... Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera"

Adélia Prado




Alameda das Acácias


Ela ficou sentada naquele banco observando a demolição daquele sobrado. A última, de uma série. A cidade se modificava a cada ano.
Aquela alameda viraria uma grande avenida. A cidade não comportava mais uma rua assim com pedras, sobrados, bancos, jardins e flores.
Ela observava e as lembranças eram intensas.
Naquela alameda, naquele sobrado, ela viveu a sua grande história de amor.
Eles se encontravam escondidos ali, naquele sobrado que estava sendo demolido, num tempo em que obedecer os pais e aceitar as escolhas deles para os filhos, era inevitável.
Mas mesmo assim ela insistiu nesse romance proibido.
E se encontravam naquele sobrado, na Alameda das Acácias.
Mas um dia seu amor não chegou. E não chegou no dia seguinte, nem no outro...e nunca mais se viram.
Ela tocou a vida, como tinha de ser. Casou-se, teve filhos, bodas de prata, ouro, diamante.
Mas nunca esqueceu da sua história, do seu segredo.
A sua cidade se modificava tanto que as referências, quase todas, estavam indo embora. Restavam as lembranças.
Ficou ali observando a demolição, levantou-se, e vagarosamente foi embora.
Ao seu lado um senhor, também com olhar perdido nas lembranças.
Recordava de como era bonito seu amor do passado. Amor que viveu, escondido, naquele sobrado. Amor puro, sincero, intenso e invencível. Sua família, por motivos que um jovem não consegue entender, precisou se afastar da cidade. Ele não pode avisar a sua amada, não tinha escolha e nem conseguiu criar um código para um encontro futuro.
Passou a vida lamentando o desencontro e de como teria sido feliz se isso não tivesse acontecido.
A demolição, a modificação da cidade levava também a única testemunha do seu imenso amor: o sobrado da Alameda das Acácias.

3 comentários:

Anônimo disse...

As cidades se transformam e as estorias se perdem. Gosto de le-la aos domingos. bravo!

Cris disse...

Andas mexendo comigo...belo e triste...
Beijos, amiga,
Cris

Anônimo disse...

Aiii,até que enfim !! A reza deu certo,Cris! Entrei somente hoje...
Lindo texto. Triste, pra mim,que tô sempre torcendo por finais felizes,até hoje.
Mas muito bonito!! E Alameda das Acácias é tudo !