TRANSIÇÃO DE ALICE

“Esbelta” – Esta era a palavra-chave que vinha à sua mente; defronte o espelho. O orvalho ao lado de fora da janela alvejava a comprida alameda em que morava, enquanto umedecia o ar, que furava seu corpo nu deixando em carne viva a nova fisionomia: intocável, recente, vulnerável. As mudanças se davam de forma brusca como num passe de mágica, a ingenuidade da criança que ali existira transformara-se em vulgaridade adulta, de inocência provocante. Ela não havia desejado ou mesmo esperado, mas foram fatores de imprescindível importância em sua nova trajetória que ela denominaria vida.

Assim fora: sem perceber, de súbito. Ao despertar, surpreendentemente havia sido tomada pela costumeira onda de violência, mediocridade e egocentrismo dominadora da alma daqueles que zelavam - ou deveriam fazê-lo - pelo mundo no qual ela seria forçada a viver dali em diante. Os mais velhos que, a partir de então, assumiriam o papel dos veteranos cúmplices eram os mestres da contradição, que àquilo já eram peritos e até simpatizantes, por que não? Não é compreensível se dizer o contrário ao caminhar nas ruas e ser surpreendido por sorrisos amarelos até dos mais fatigados, escorraçados e indignos do mesmo. É belo e por vezes até confortante, porém ainda seria uma incógnita sobre a qual ela teria de lidar por um longo período de tempo, quiçá até o fim de seus dias.

Naquela hora, após breves doze anos em que pôde viver sem ter conhecimento daqueles fantasmas, sentiu-se como todos, ou melhor, como mais um dos 6 bilhões de habitantes do planeta, o que pode ser transcrito em “menos especial do que sempre fora”. Não se sentia mais como no romance de Lewis Carroll, o país das maravilhas era agora difundido e a Alice que ali se mantinha presente não mais se podia dizer digna do carinhoso apelido concedido pelo pai, quando menina.

Sentia vontade de ficar ali durante o tempo que fosse preciso para suprir a já vigorosa necessidade de dar direção à seus questionamentos, porém não havia mais tempo: tinha um mundo a conhecer. E quem sabe, diga-se de passagem, conseguir solucionar um ou dois deles.

2 comentários:

cris braga disse...

Arrasou , como sempre!bjo

Cris disse...

Preciso mais tempo para vc. Ler várias e várias vezes em um exercício constante. O tipo de escritor que é preciso desvendar...a menina dos enigmas hehehehe, beijos,

Cris