
Da natureza das coisas
Preparo o solo onde deitarei minhas sementes. Preparo a terra com olhos de camponês velho. Chapéu surrado visto sombreando o rosto, a pele corada, curtidos de sol e de tempo. Com as roupas desbotadas estou, estou em farrapos. Os pés ásperos, as mãos sem enfeites, sou lavrador. Sou pessoa sem receios. Como eu é gasta a minha enxada e ela não se envergonha porque o trabalho a usou. Não a incomoda revolver a terra e servir. Ela é um pedaço de pau roliço unido a um ferro afiado. Ela é um cavar manso, um cavar macio, um se misturar na terra e gostar. O que lhe importa neste prazer ser quem é? O que lhe importa o corpo manchado pelo suor das minhas mãos? Ora, é certo que bem poderia se incomodar, somos matérias tão diferentes, poderia reagir me ferindo, tomar vida me golpeando. Mas que nada! Nos entendemos muito bem - e nos compreendemos - afinados na simplicidade das coisas.
Quando fui à loja comprá-la vi como os camaradas riam de mim, da minha demora em escolher...e perguntavam qual, qual a diferença. Eu também achava graça, mas eu é que me ria deles. Os meus amigos ignoram o fato de que uma enxada foi feita de um tronco de árvore e de um pedaço de rocha. Eles diziam, engrossando a voz, que é tudo a mesma coisa! Mas eles não sabem, eles não sabem, eles não sabem que não existe igualdade nas coisas.
O tempo planou imperceptível e tomou forma, ganhou vida em nós, no tronco e na rocha, em mim, no cabo da minha enxada. Ela conhece meus ombros e a terra que a suja por inteiro. O sol, o calor do chão, minhas mãos rudes, a água, a ferrugem, o sereno. Todos nós a fazemos envelhecer mas sabiamente ela não lamenta e se torna muito antiga como só o que é verdadeiro ousa ser. Assim, mais do que posso aprender - ela me ensina - ela me ensina sobre a relevância das coisas.
Na ponta da minha enxada eu construo um mundo, uma estrada, um jardim. Eu ergo a minha casa e guardo o tempo, conheço o tempo e o seguro entre as minhas mãos como um passarinho. Com as mãos em concha o protejo, e porque ele me parece pequeno, eu me torno delicado, porque só me resta ele, passarinho que acolho em minhas mãos.
Descobri que minhas mãos não dão conta de segurá-lo, meus dedos estão inseguros, minhas pernas não têm pêlos, eu agora sou um menino.
À noite o descanso me espera. A água macia me limpa no rosto, no corpo, nos pensamentos do dia. Descansarei neste algodão esticado sobre a cama, a me embrulhar as pernas o branco quarado, o pano. No silêncio que faço me conforta lembrar como é sagrado o lugar onde me deito, nesta hora quando o escuro me embala e me leva aos lugares onde moram os sonhos, onde minha alma se amansa. Minha cama são as mãos de Deus, sou leve como a imaginação e vivo por alguns instantes a plenitude, a plenitude na perfeição das coisas.
Lembro dos homens na loja e suspiro um cansaço quente de quem conhece a própria verdade, meus olhos pesam agradecidos, vou fazer outra viagem.
3 comentários:
Muito lindo Cris! Parabéns!
Ontem falei com Simone.Ela mandou beijos
Impossível não gostar!
Nossa,Cristiane,como vc escreve bem!
Tudo parece tão fácil,com o seu fluir...
Lindo!
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