A menina e o vinho.

Era o vinho que ficava difícil de virar. Era a cabeça que doía de pensar. O gosto do vinho batia azedo no paladar. Já passava de meia noite. Mas não era a hora que importava.
A menina cansa de falar no imperfeito. Olha o reflexo do rosto na janela do quarto e pensa. Pega o telefone numa mão, o copo de vinho na outra, e pensa. E escuta vozes que não quer escutar. Bebe mais um gole. Olha as unhas, se arrepende de roê-las e tenta mudar o pensamento. A cabeça dói, de tão cheia chega a ficar vazia, alma vazia de clarificações. Mente vazia de emoções. E para que lhe servem as rimas?
E vai mais um gole e a menina pensa. Em coisas que não quer definir. Coisas que não quer sentir. A menina não agüenta mais rima.

E ela pula uma linha, e aí vem o vão. São sonhos que se formam na palma da mão.

É noite. O travesseiro não acomoda mais. Tudo lhe é estranho, a cabeça, o cabelo, as mãos. O barulho do nada bate forte. O tintilar de palavras que anseiam por serem escritas. Palavras que não dizem nada. Nada. É um vão só dela, só seu. Coisas que não foram feitas para serem escritas. A menina procura um copo de vinho. É o cheiro que a faz lembrar a infância. Que já passou.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!
beijos mis...