O Mais que Perfeito Silêncio do Amor

É noite. A cidade dorme, eu te olho. Tudo é inquietação e medo, espera e euforia, me equilibro entre o imaginado e o não vivido, o que ainda está se formando, e no íntimo segundo entre a espera e a clareza do movimento, quando o desassossego se transforma em coragem capaz de romper represas, é esta intrépida coragem que me aproxima de ti. O que faço com o destemido medo? Nada. Não o quero absorvido no desejo afoito, quero apenas estar...não preciso de atitudes, elas já não me sustentam, preciso do que for genuíno, necessito do primário instante das coisas, este abraço da noite, teus braços na noite, não é medo o que sinto, é muito mais, é a indescritível emoção da vida.

Tudo em silêncio, a cidade dorme, meus olhos debruçados em ti - se animam - como um pintor que deve ir além do que vê, do corpo e das linhas, olhos, queixo, nariz, pela alameda dos teus ombros sigo pela curva mediastina do teu peito. O tempo evaporou, não existem mais segundos ou milênios, o agora é o tempo que se materializou e se torna concreto em nós, nos gestos que faço ao te tocar. O tempo pára a cada instante no contorno da tua boca, nas voltas infinitas de um passeio onde desenho o esboço de um beijo.

A cidade dorme, te olho, estou inteira e sem perder o rumo - e se falasse alguma coisa, explicasse, deixaria ao largo palavras desgastantes - a mente esquece de funcionar. O olhar é uma coisa tão doida - eu me pergunto, mas não quero pensar - o que será daqui por diante, o que será? Qual será o próximo passo, não é relevante, eu falo por dentro e me escuto - vive, vive agora, porque o instante não vai mais voltar.

Sorrio enquanto a cidade dorme. Minha respiração é lenta, todo o universo no mesmo lugar, mil anos luz se passaram eu sei, não me preocupo, não me atrevo a atropelar, não te beijo, eu me aproximo, porque o beijo já está. E tudo espera, enquanto sinto, adivinho, enquanto paro pra respirar e presto atenção em ti e te olho, em um modo muito próprio de beijar. Quero me demorar neste caminhar distraído - não invento – estou com o gosto profundo dos sentidos, não tenho pressa, se por agora a proximidade é o teu perfume a me guiar, são detalhes, paro, fico, estou pintando uma tela que não dá vontade de terminar.

No lugar onde quero estar, do outro lado da vida, algo diferente acontece porque me pego a rir, sem assunto, sem ter o que falar. Nenhum pensamento me aflige, estou fluida, em outro estado químico, sou uma intuição.

A cidade acorda devagar...
Silenciosa e grave estou, vem ficar mais perto, o dia vem raiando e o céu muda de cor, estou lírica, e meus olhos continuam em ti, a emoção não está de brincadeira e um cuidado me comove. Pudesse eu te perguntar, o que foi desta tristeza que vejo no teu olhar? Porque não me contas, se posso te ouvir? Sem perguntas tampouco, aceito e te trago para mais perto, não vou pegar atalhos, vou escrever este final singelo de um querer bem, e novo, com jeito de amor antigo, deves saber que ainda te quero da maneira que és, sem tropeços, deixa a tristeza em minhas mãos, o que posso te dizer é que ela há de passar...

3 comentários:

cris braga disse...

Lindo e apaixonado!bjs

Cris disse...

Amiga,sei que vc me entende....hahahaha!!! Beijos

Anônimo disse...

... e te olho, em um modo muito próprio de beijar...
perfeito amiga!!!