Saudade

Dia desses dei por mim, e mais atenta, percebi que não estou sozinha.Um “nãoseioquê” sem procedência se instalou serenamente bem perto do meu coração, em frente, do lado oposto. E como se fora um vizinho curioso, que nos fins de tarde descansa os braços sobre o balcão, a saudade me vigia, e fica a deitar olhos no burburinho da minha emoção.

A saudade é vazia. É a leveza de uma folha – mas não é a folha – não é concreta, é o bailado a fazer e se desfazer ao vento. A saudade é um déjà vu que me pega pela mão,me põe um exagero na alma e me faz desejar um substrato anterior ao pensamento, um sentir antes do que foi sentido.

A Saudade é cheia. É a necessidade de capturar o momento, é um tino, vontade que me impulsiona em direção à ilusória e diversa repetição da vida, da vida que ainda está por vir. A saudade é o sonho aguardado na forma de uma promessa. Ela é plena. Mas não tenho saudade do que possuí, daqueles a quem amei e se foram, dos pedaços da vida que eu construí. Não há o que perder se amei, entreguei, se pertenci - tudo é contínuo na marca indelével da minha emoção. Amei, entreguei, pertenci, e recebi o eterno gravado como uma lembrança.

Saudade, sentimento íntimo sem tradução. Não é boa, nem ruim, se aloja no vão entre o que penso e o que sinto, é uma tristeza dócil que quando anoitece se esconde no copo do vinho mais escuro, na alegria entre os amigos, no modo estreito de sorrir..., e ninguém a vê, mas na madrugada ela me veste e como se fosse um cobertor gasto me cobre e me deixa um frio incômodo a subir pelas pernas. E ela dorme comigo e ela me tira o sono: pertubadora, exagerada, inconformada.

No entanto, meu pensamento lógico argumenta, briga, tenta me libertar, mas no fim vence o aposto: - luta inglória, odisséia. Sendo assim, estou em operação de resgate e me organizo sem muito alarde de modo a acalmar o sentimento. Ajo, enquanto o dia corre, apoiada na normalidade de cumprir os afazeres que a vida me impõe. Distraio a tal saudade de nove às cinco, burocraticamente, enquanto ganho tostões, falo muito, faço serões e, não satisfeita, passo a suborná-la com musica, poesia e pensamentos mirabolantes.

Assim, modestamente vou, a cuidar de um viver paralelo – coisa esquisita que nem mesmo sei nomear – sigo em frente aparando com muita calma e desvelo o excesso de sentimento que transbordou as beiras e anda a escorrer nas mesas. Sou feita deste complemento que me preenche os intervalos, me faz rompente e viva, e me apraz que aos olhos meus seja possível apreender o mundo sob a ótica da irrealidade - do sonho - e pouco me importam as dificuldades que me causa ser excessiva. Sofro e adoro, nem sempre nessa ordem, quase nunca com a mesma intensidade. Mas a realidade vem e eu a uso desta maneira revirada e fico a torcê-la pois a quero sob medida para o tamanho dos meus sonhos.

Cuido do paralelo. E, se o faço, faço de modo cauteloso, com o se fora uma atitude preventiva, como um convalescente frágil precisa que mesmo as forças o tomem devagar, sem grandes sustos. E, se o faço, faço de modo prático para que eu possa acordar com o corpo disposto e, no meu caminhar rotineiro de todas as manhãs, preparar o café preto e tomá-lo quente, puro e amargo, enquanto o Cristo Redentor me vela da janela do meu quarto. E ainda estirada sobre a cama, a olhar o céu róseo se misturando ao azul, sorvo a coragem nos goles lentos e quentes do café, ao qual sinto extremamente amargo, mas gosto, e peço ânimo para o restante das horas deste dia que hei de descobrir. Saboreio a aurora de incertezas - junto ao café que vasculha minha boca dormente. Estou ainda a sonhar enquanto a claridade colorida da manhã se derrama sobre a minha cama.

Não demora que eu me vá embora, movida pela firmeza de levantar a vida e reinventar as próximas vinte e quatro horas. Dentro de mim não há nuvens, os dias estão quentes, ainda sou a mesma, mas ouçam que aquele burburinho permanece, e próximo ao coração há também um rebuliço..é esta tal Saudade a mexer comigo...

2 comentários:

Anônimo disse...

Os grandes poetas precisam ser igualmente grandes sofredores.
Coitados.
Mas que essa dor toda lhes serve bem,lhes serve.....
Pelo menos pra nós,fiéis leitores e grandes admiradores.
Mais uma vez...Parabéns!!!
Beijos grandes

cris braga disse...

Lindo,Cris!Tocante!bjs