
UMA DIGREÇÃO
Começo minha história bem cedo, quando eu não me percebia, quando eu não tinha sequer desenvolvido um dialogo honesto comigo mesma. Também, cresci achando que por mais e melhores diálogos que eu tivesse, nunca se compararia ao dialogo que eu teria com o meu futuro companheiro.
Minha família: muito próxima, presente, tradicional, livre e reprimida – completamente inconsciente. Tenho um ótimo exemplo! Minha mãe tem quatro irmãos, com ela são cinco filhos – todos casados! Meu pai tem dois irmãos, com ele três – todos casados!!! E não são casamentos de dez ou quinze anos não, os mais recentes tem quase vinte e os mais longos tem mais de trinta anos!!! Vamos lá, vou repetir porque nem parece verdade ou possível em pleno 2007 – oito casamentos, o mais curto tem exatos 17 anos e o mais comprido tem nada mais nada menos do que 34 anos (dos meus pais)!!!!! Sinto-me uma verdadeira e.t.! Não conheço ninguém assim, o mais incrível é que com tantos fatos concretos e absurdos minha família – mãe e pai – acha que não somos tradicionais. Para tudo!; Se oito casamentos e zero divorcio não é tradicional, o que poderá ser então? Será amor verdadeiro pra a família toda? Não acredito! Até acredito que entre esses oito, alguns sejam verdadeiros, mas também será que verdadeiro é a palavra certa? Como podemos ser verdadeiros no relacionamento se nem somos verdadeiros com nós mesmos, se nem sabemos o que é ser verdadeiro. Alias verdadeiro nem é a palavra certa, tem muito peso, acho que nem precisamos ser verdadeiros, mas precisamos é estar presentes. Posso afirmar que presentes muitos já não são ou estão. Como podemos estar presentes com nós mesmos, se não nos damos a oportunidade de nos descobrirmos. Somos podados desde cedo - por tudo! Com intenção e sem intenção. Vem de fora, vem de dentro, vem do mais profundo, vem do consciente e do inconsciente. Crescemos já com uma idéia de quem somos, idéia que vem completamente de fora. Concebemos uma identidade à partir de uma identificação introjetada. Tenho características hoje que de fato questiono – será que realmente sou eu, ou será que é uma idéia que eu preenchi ao longo dos anos conforme foram me enquadrando? Escuto histórias que meus pais contam que me descrevem, desde a primeira vez que eu mamei - e naquele primeiro momento de vida eles já me taxaram! Minha mãe repete até hoje que eu já brigava com o peito dela, e que portanto, nasci briguenta. Que coisa louca, eu já era briguenta e nem tinha dente, cabelo, mal abria os olhos. Minha pergunta nasce nesse momento. Eu me tornei uma pessoa difícil, briguenta, implicante, por quê? Será que encarnei essa personagem que me deram, antes mesmo de saber qual era o meu nome? E se não tivessem dado tanta importância para alguns momentos e dado mais para outros, será que eu poderia ter sido outra, diferente? A verdade é que quanto mais eu vivia, mais me diziam como eu era e mais eu me identificava com o que era contado e falado.
Durante anos vivi sem ter qualquer crítica sobre esse assunto, totalmente inconsciente, nunca imaginei que teria uma outra possibilidade - ser quem eu sou por eu mesma. Sabe lá quem é essa pessoa, e na verdade ela não tem que ser, apenas estar. Bom eu to me perdendo aqui. Voltando a historia, além da relação familiar tem a relação social, que creio ser totalmente opressora e mesquinha. Crescemos achando que devemos muito ao outro. Que devemos sempre demonstrar desempenho, desenvolvimento, felicidade, talento, tranqüilidade, amabilidade....enfim.... A lista vai longe.... Primeira cobrança que eu já sentia bem pequena era quando brincava com as minhas amigas. Já pensava nos meus futuros filhos e marido. Já pensava que havia alguém, a minha alma gêmea, o homem da minha vida, a minha cara metade, aquele que apareceria, como mágica, ou melhor, como nos filmes para me completar – para ser o meu companheiro; a pessoa que iria dividir todos os meus momentos, que eu faria tudo junto, que seria o outro lado da moeda. Que idéia mais louca. Resumindo até os meus 26 anos eu achava que eu era incompleta mesmo estando comigo mesma.
4 comentários:
Muito bom, Diana!É bom quando a gente se descobre completa, só estando com a gente mesmo.bjs
É menina, às vezes é difícil, pq também dá medo a gente resolver ser aquilo que gostaria e pensa que não consegue, mudar, quando parece mais comodo ir se encaixando nestas rotulações construídas pelos outros ao longo do tempo. Mas a gente pode ser o que quiser e esse papo vai longe pacas(rs)Beijos Diana!!!
Esse personagem que vc criou (q deve ser vc mesma) - uma mulher beirando os 30 que vai descobrindo que suas escolhas podem ser equivocadas e/ou modificadas é muito bom.
A sinceridade e o questionamento sao fundamentais, tem uma auto-critica boa tb,de ir se redescobrindo, de ir buscando no passado as respostas para as coisas do presente.
To virando leitor.
"CONTARDO CALLIGARIS
Narciso no país das maravilhas
A maioria dos objetos são drogas: satisfazem um anseio parecido com o do toxicômano
ESSE É o subtítulo de um estudo publicado recentemente (2006) pela Routledge, "The Self Psychology of Addiction and its Treatment" (a psicologia-do-self da adicção e de seu tratamento). Os autores, Richard Ulman e Harry Paul, são psicanalistas (da psicologia do self, a escola de Heinz Kohut), terapeutas de toxicômanos e eles mesmos drogadictos em remissão.
O estudo, embora estritamente clínico, propõe uma visão da toxicomania que, ao meu ver, vale como interpretação geral da modernidade. Explico.
Na laboriosa tentativa de encontrar um lugar no mundo, cada um de nós se alimenta de duas fontes: 1) as aspirações, as normas e os brasões transmitidos por nossos ascendentes, coisas que podem nos dar a sensação de que temos uma missão na vida; 2) o amor, mais ou menos incondicional, que nos acolhe e agasalha nos primórdios de nossa existência permitindo, aliás, que ela vingue.
Em suma: legados paternos e cuidados maternos (é óbvio que qualquer um pode fazer função de pai ou de mãe).
Ora, na modernidade, bebemos sobretudo na segunda fonte. Por isso, somos todos narcisos, ou seja, mais preocupados em sermos gostados, amados e admirados pelos outros do que com deveres e princípios.
Problema: em geral, o modelo do amor graças ao qual seríamos "alguém" (que sempre significa "alguém muito especial") é o momento em que, pendurados ao peito materno, ou melhor, com a mãe pendurada aos nossos lábios, estaríamos ao centro de um mundo controlado por nós: basta chamar, chorar etc. para que ela apareça e nos faça felizes.
Logicamente, com esse sonho narcisista encravado no nosso âmago, torna-se difícil lidar com separações, frustrações etc. E, infelizmente, o mundo é um pouco mais cruel do que a mãe-padrão e sempre muito mais cruel do que a mãe mítica e escrava que gostaríamos de ter tido.
Como aprendemos a encarar perdas, danos e fracassos?
Quem lia as tiras de Charlie Brown, de Charles Schultz, deve se lembrar do cobertor que Linus carregava sempre consigo: quando as coisas não iam bem, ele agarrava o cobertor e chupava o dedo; era seu jeito de reencontrar, momentaneamente, a felicidade perdida. O cobertor de Linus é um exemplo perfeito do que D. W. Winnicott, um grande psicanalista, chamou de "objetos transicionais": são objetos inanimados, mas que representam um amor do qual não conseguimos ainda nos separar.
Eles funcionam como o lápis entre os dentes do fumante que quer parar de fumar: não substitui o cigarro, mas, na luta para deixar o vício, oferece conforto nas crises de abstinência. Ou como a mamadeira da noite quando o desmame acabou há tempos, mas ainda bate, digamos assim, uma "nostalgia amorosa".
À força de brincar com cobertores e chupetas, a gente deveria aprender a 1) dispensar cobertores e chupetas,
2) lidar com a precariedade da presença e do amor dos outros. Mas não é tão simples assim, até porque, nessa tarefa, o mundo não nos ajuda. Narciso vive no país das maravilhas, diante de uma imensa vitrina de objetos que nos prometem o seguinte: ao alcançá-los, ganharemos o amor, a admiração e (por que não) a inveja de todos. E alcançá-los é fácil -basta comprar: chocolate, relógios, charutos ou pacotes de férias.
Quem precisa de amores incertos com pessoas de verdade ou de objetos "transicionais" que as representem? Os objetos do consumo são a melhor escolha; sobre eles temos um controle absoluto.
As drogas propriamente ditas oferecem algumas vantagens marginais: são baratas e, graças à crise de abstinência, garantem a ilusão de dominar perfeitamente a alternância de insatisfação e contentamento. Mas, na verdade, para Narciso no país das maravilhas, qualquer objeto de consumo serve.
Poderia ser o melhor dos mundos, se não fosse por dois detalhes. 1) Se hesito entre um carro e uma amizade ou um amor, é bem provável que minha experiência afetiva seja miserável; 2) se espero a felicidade dos objetos, desaprendo a agir e a desejar. No próximo domingo é a primeira fase da Fuvest, e passei o ano dormindo no cursinho? Não é o caso de me desesperar, vou para o shopping comprar um sapato simplesmente "divino".
Agora, falando sério, por que se opor à liberação das drogas? Afinal, a maioria dos objetos em venda livre satisfaz, no fundo, um anseio parecido com o do toxicômano. Relaxe e goze..."
Estava conversando com amigo sobre esse estudo e falavamos justamente sobre relacionamentos. Os relacionamentos onde ha dependência emocional, os passageiros e superficiais. Chegamos a conclusão que eles atuam como os "objetos transicionais". Ser so não e tarefa facil... E sabe, nos preocupamos com os relacionamentos com as pessoas, mas esquecemos que com frequência objetos e situações substituem nossa "nostalgia amorosa". Aff! Pensar enlouquece! Bjs...
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