Escrevi o texto a partir da música, Noite das Meninas do cantor e compositor Tulio Borges de quem as canções já fazem parte da minha trilha sonora e muito têm me inspirado. Ele foi apresentado pela não menos talentosa colunista das sextas-feiras, Vytória Rudan que sabe tudo da boa música.
Divirtam-se com a peróla que espero ter alcançado com palavras.



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sexta-feira final de expediente
fim do tédio
início de outro
estou morto
sou só um corpo
um corpo que perambula
me alimenta anda trabalha vive
como um corpo morto
a cumprir tarefas
acabou a semana
desligo
o ar condicionado
luzes
tranco a porta
a noite
quente abafada no ar seco me fere a garganta
Corta

Quarto apertado ar parado na janela de cela paisagem da noite fria cenário de sombra não tem luz só tem fumaça o óculos embaça. Não tem luz tem lâmpada não tem fumaça tem gente que respira que respira o vapor de corpo vivo e se mistura na boca ao gosto de álcool e de saliva.
Não. Aqui ninguém respira aqui é só a noite escura na lâmpada amarela baixa balança perto da cabeça enquanto a gente divide um pouco do ar e da língua funda que encosta e troca e pega e tira e experimenta e volta e pára escorraça e geme e continua no álcool e na boca a noite escura e seca. Queima a respiração debaixo da lâmpada amarela na esquina da parede áspera encurrala arde e arranca o suor do álcool na boca as mãos espalmadas ardendo rasgadas abertas fechadas entram com o gosto de medo molhado de gasolina e saliva.
Estou morto estou vivo estou na caverna deglutindo gozo e gemidos monossilábico primitivo no ocre gosto da pele que sobe e desce na mordida entre as coxas na minha boca palato e virilha e não respiro sinto o ocre a poeira o chão nos lábios e nas costas saliva e pressa óleo e pernas que me prendem sugam o pescoço e me invadem lábios um medo molhado nervoso me suga ofegante o cheiro de floresta no leito da noite. Um bicho que reconhece no escuro um corpo na urgência da noite fina enquanto abre fecha vira passa a língua logo acima a lâmpada ilumina apaga e queima no vapor desconhecido do incenso a pele suada engole desvario e tristeza.

Nas esquinas, nas paredes escorre
a noite fina das meninas
da janela da cela entra bêbada em mim macia
derrama a língua no céu da boca
veludo e melancolia
enfia pela garganta
o pote cheio de agonia

5 comentários:

cris braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cris braga disse...

Maravilha,Cris!!!

cris braga disse...

Música e texto!

cris braga disse...

Êle me lembra Chico Cesar...

Anônimo disse...

é o avesso do avesso do avesso do avesso,
voluptuoso e denso.