“Pois é”, falou a mulher da loja, “o fim de ano tá aí, como passou rápido...” Porque praticamente todo mundo que eu conheço vem com esse discurso quando chega dezembro... “Nossa, passou muito rápido mesmo”, concordou o homem que estava ao lado, “Ainda ontem era Janeiro...”. Peguei minhas compras e fui andando, sem saco de ouvir aquele mesmo papo furado de sempre, mas que era uma grande verdade. Imaginei que o homem e a mulher da loja fossem continuar a ladainha nostálgica 2007 falando de como a rotina era corrida, que já era quase natal e não tinha nem dado tempo ainda de arrumar a árvore, que talvez ela fosse passar as férias em Salvador com o irmão e ele ia pra Saquarema mesmo... ou vice e versa. Em seguida eles iam falar alguma coisa sobre a árvore de natal da Lagoa e o insuportável trânsito que ela causa e logo estariam fazendo uma retrospectiva do ano, falariam dos grandes casos, do PAN, da TAM, do Renan...(ou talvez não, pouca gente ainda se lembra disso...) e aí talvez ele convidasse ela pra tomar um cafezinho na praça de alimentação do Shopping.

E enquanto ia andando por Botafogo a procura de um ponto de ônibus comecei eu a pensar em todas as coisas profundas que o homem havia dito à mulher na loja. “Pois é, ainda ontem era Janeiro...” Foi quando eu comecei a pensar em todas as coisas que eu precisava programar para... 2008? (definitivamente a ansiedade é o mal da modernidade. Pelo menos é o meu mal.) Porque dizem os especialistas (não sei de quê, mas hoje em dia tem especialista e guru pra quase tudo) que nós temos que pensar nas metas para cada ano, década e século (se a gente viver até lá). Aquelas listinhas do tipo “começar uma dieta”, “gastar menos dinheiro”, “escrever um livro” ou “ir pra Índia”, que nascem em Janeiro e até o carnaval já foram parar no lixo. Uma amiga minha uma vez resolveu virar budista vegetariana e fazer uma tatuagem na mesma lista. Logo vi que não ia dar certo tantas resoluções radicais para um ano só. E não deu, claro. No dia seguinte ela já estava comendo lingüiça (mas me fez jurar que eu não contaria pra ninguém e nem escreveria num blog a respeito disso).

Fiquei tentando organizar mentalmente minha lista no caminho para casa, mas é muito complexo saber o que eu quero pro ano que vem se não sei nem o que vou fazer amanhã. Se bem que eu não sou mesmo a pessoa mais prática . Até o meu irmão de três anos consegue ser mais objetivo. Ele, por exemplo, tem como única e inabalável meta no momento ganhar o Marciano estranho dos desenhos da Liga da Justiça. Tudo bem que já procuramos em todas as lojas da cidade o bendito brinquedo sem sucesso, mas o danadinho é persistente e todo presente que ele ganha, de um sapato a um chocolate, ele pergunta se é o tal Marciano. Quanta determinação. Ele já sabe até o que quer ser quando crescer: o Batman, claro. Isso que eu chamo de uma criança bem resolvida.

Essa coisa de organização pessoal é realmente muito difícil. (Aquela coisa de auto-conhecimento então...) Resolvi que o ideal seria listar primeiro as tarefas fáceis e alcançáveis, assim as chances de eu desistir no dia seguinte eram menores. Pronto, era essa a solução! Comecei então por um item muito simples, prático e imediato, que se encaixaria na lista de “curtíssimo prazo”: arrumar meu quarto. Tive a sensação de que eu desistiria assim que chegasse em casa, mas, ainda assim, era um bom começo...

5 comentários:

Cris disse...

Vc é ótima, clara, me identifico sempre, escreve bem, adoro, bjs de fã!!!

cris braga disse...

Clara, eu nunca consegui seguir as listas de ano novo que faço todos os anos...Acho que a minha filosofia é não segui-las ... hahahaha...adorei o texto!beijos

Mariana Barcellos disse...

Adorei! Como sempre, super fluido o texto, dá vontade de ler...

beijos

Mordechai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A VERDADE SOBRE A TERRA disse...

Bola dentro Clarinha!!!

É o que eu sempre digo... faça qualquer lista e vista uma camisa de força...vc vai contra a sua natureza quando tenta se impor regras que violam sua condição humana. Por que mais regras? Já não nos basta a que somos obrigados a seguir? A mudança não se faz pela força do cumprimento da regra, mas pela compreensão de que uma nova postura é o que lhe traz paz e harmonia interior e com o mundo.
Considerando que 10 é a regra imposta para a nota máxima, eu te dou nota 11 com louvor.

Bj.
Kito