Pensei, pensei, pensei e pensei...e nada...como assim? Uma palavra que tanto me diz...vem idéia...pode chegar...foi aí, neste exato momento, que me lembrei de um texto que gosto muito e guardo do filósofo Alfeu Trancoso. Sim ele é o cara...foi uma descoberta.
Filosofia com sabor de quero mais...sim o texto é grande mas como não seria? Palavras sem pressa, esperando por você. Espero que tenham o prazer que tive ao encontra-lo.


O "ethos" é um modo de se comportar, de habitar e de cuidar deste mundo e do universo que nos cerca. E são esses modos de ser que determinam nossas atitudes diante da existência. É deles que depende nossa sobrevivência como espécie.
Já a alegria é a manifestação espontânea dessa experiência de ser. O sentimento de integração que é a experiência gratificante da união com o todo (natureza, pessoas e sonhos) expande nossa capacidade de criar e comunicar. A alegria é a expressão maior dessa felicidade de ser, ser agradecimento e comemoração. É o saber que nossos amores são parte de nossa mensagem e que uma vida feliz só se atinge pela sabedoria.
Ainda tivemos o privilégio de ter nascido e, após vencer toda a sorte de dificuldades, estamos aqui, vivos, para apreciar o espetáculo do mundo. Devemos considerar como divina essa possibilidade, pois ela é uma em toda a infinitude probabilística do universo. Desse modo, ver, admirar, amar e criar são alguns dos mais nobres atos da existência humana.
Felizmente, sabemos que tudo o que é precioso é muito difícil de atingir porque demanda persistência, esforço e zelo. Urge fazer aflorar essa irradiância que está dentro de todo o ser vivo. Ela não pode ficar presa em nosso interior, precisa emergir e tornar-se afeto, sentimento amoroso, fazendo da nossa existência um acontecimento feliz.
Sabemos que uma grande parte das nossas doenças acontece por falta desse afeto. Há uma outra via aparentemente mais fácil: o esplendoroso e sedutor caminho do desejo e, consequentemente, da fantasia, do pessimismo e da falta de esperança do mundo contemporâneo e consumista.
Para gostar da natureza e dos outros precisamos gostar muito de nós; descobrir, de repente, que somos seres especiais. Esse é um sentimento maior de nobreza, o que nos faz ver que somos parte de uma mesma simpatia universal, representada por todos os seres da Mãe-Natureza. "Amar ao próximo como a ti mesmo"é uma das mais sábias de todas as afirmações, pois gostar de nós é a primeira condição para gostar dos outros.




Amar o nosso mais próximo que somos nós. E aí teremos o prazer de descobrir que somos o nosso melhor amigo, que podemos reaprender a olhar de modo diferente, de sentir que nos amamos e, portanto, somos amáveis. Saber que o ser que ama a vida irradia brilho. É só aprender a observar para perceber essa iluminação.
No momento em que escrevo este texto e que você o lê, infinitas possibilidades estão ocorrendo: gestos de ternura, de alegria, de comemoração, de amor e de solidariedade - vida. Entremeados a tudo isto, a loucura, a destruição, o ódio e a intolerância - morte.
Cabe a nós escolher o melhor caminho ou fazer perguntas mais radicais: Porque me maltrato tanto? Porque busco somente o que não dá certo? Então, podemos descobrir, atônitos, que somos nós que produzimos nosso sofrimento.
O mundo não é bom nem mau, ele é tudo o que acontece. O meu mundo, sim, ele existe e posso fazê-lo alegre ou triste. Depende do nosso modo de olhar e de avaliar as coisas, e, assim, a alegria passa a ser a consequência natural dessa mudança de atitudes.

Alfeu Trancoso

4 comentários:

Raoni disse...

Tem vários pontos interessantes, embora o acho bastante positivista. A alegria é deveras uma manifestafacao harmoniosa do ser, mas é preciso ter em mente que a dor também é parte do ser humano, e que sociedade e o ser humano é feito do paradoxo dor e prazer.
Sendo o autor um contemporaneo, nao pode ignorar os dilaceramentos produzidos pela sociedade industrial.
E também é preciso dizer sobre como chegar a esse estado de harmonia entre ser e natureza.

Raoni disse...

"(...)De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausencia; ao contrário, quando nao sofremos, essa necessidade nao se faz sentir.
É por essa razao que afirmamamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz.
Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasioes em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; nao obstante isso, nem todos sao escolhidos; do mesmo modo, toda a dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas.
(...)
a prudência é o princípio e o supremo bem, razao pela qual ela é mais importante do que a própria filosofia; é dela que se originam as demais virtudes; é ela que nos ensina que nao existe vida feliz sem prudencia, beleza e justica, e que nao existe prudencia, beleza e justica sem felicidade."
Epícuro, Cartas sobre a felicidade.

Cris disse...

Ótimo, Si...e concordo com Raoni tb,e ainda concluo colocando o afeto, ou o exercício dele, como a fundamental ferramenta da felicidade, a felicidade delicada...beijo!!!

Vytoria Rudan disse...

Simone, também para mim foi um prazer enorme encontrá-lo!