Transparência

A casa era antiga. Fora construída por Seu Onofre, um sujeito de boa reputação. Onofre tinha uma verdadeira obsessão por transparência e construiu a casa praticamente toda de vidro. Não se sabia exatamente de onde vinha tanta fixação pelas vidraças nas janelas, pelas portas envidraçadas e até pelas paredes de vidro! Talvez fosse o trauma de infância, quando ele próprio pegara sua mãe na cama com o tio, ao abrir a porta sem bater. Também volta e meia ouviam umas empregadas ele reclamar sobre a escuridão que era a casa onde passou sua infância, repleta de balaústres e quadros na parede. De todo modo, qual fosse a verdadeira razão daquela obsessão, certo mesmo era que Onofre adorava se gabar de tanta transparência e bradava a plenos pulmões “Mas que casa honesta!”

Foi num dia chuvoso, quando lia sentando numa imensa poltrona no escritório, que Onofre viu, através das seis paredes de aposentos que os separavam, sua mulher agarrando o jardineiro e teve um ataque. Enfartou na hora. Uns dizem que ele já era cardíaco. Outros, que foi o choque mesmo. Muitos não entendiam porque a mulher havia feito isso, sabendo das “condições transparentes” da casa. Alguns juravam que ela havia feito de propósito. E a última suposição se confirmava. Bem no dia do enterro, quando, entre pêsames e preces, o padre deu a palavra à viúva, ela simplesmente disse, em alto e bom som: “Finalmente poderei tirar a roupa em paz!” E se retirou para seus aposentos.

No dia seguinte, mandou quebrar todas as vidraças e revestir a casa de madeira, balaústres e quadros na parede. Qualquer coisa que a tirasse da completa transparência em que vivia.

3 comentários:

cris braga disse...

Uau...

Cris disse...

quebrou a vidraça...

Simone Botto disse...

Clara adorei !!
O Filme é o P.S. Eu te amo. Veja e me fale. bj