
Ainda bem que Gonzaguinha cantava: “...é a vida ...e é bonita ...é bonita....
viver ...e não ter a vergonha de ser feliz...”
Vingança
E ela descobriu o que muitos pensavam que já sabiam, que toda a torcida do flamengo pensava que sabia, que toda a vizinhança pensava que sabia, o que as beatas da igreja pensavam que também sabiam e fofocavam: que seu apaixonado noivo Elton, o bom partido, executivo de uma multinacional, desejado por muitas mulheres, tão atencioso e gentil, a traia.
Descobriu sem querer, ninguém lhe contou.
Estava perdida, numa rua estranha, quando se deparou com aquela cena. Ele e uma “mulher” estranha. Seu carro, ultima geração dos importados, inconfundível, não deixava dúvidas, era ele! Dedicava atenção e carinhos à “ela”, essa estranha mulher. Uma cena vulgar, baixa, meio imunda. Tinha um mistério, um segredo, desejo. Se olhavam intensamente, se tocavam. Ela não sabia explicar. Ficou assustada com o que presenciava. Não acreditava. Ficou a ponto de chorar, sua visão ficou manchada, aguada. Não chorou. Decidiu encarar.
Esperou que saíssem do carro, como coração na boca, os seguiu. Se informou sobre o estranho casal, no prédio onde entraram. Confirmou. Ficou chocada, a ponto de vomitar. Durante o mês que antecedeu a data do seu casamento, todos os dias, o esperou chegar ali. O porteiro a informou sobre o horário que aquele homem tinha como hábito chegar. E ele chegava. A cena se repetia.
Ela, a traída, iludida, estava lá para conferir. Não era engano. Era ele...seu noivo.
Idiota, idiota, idiota, era como se sentia. Uma idiota perfeita. Apostara tanto nessa relação e agora tinha que conviver com essa humilhação completa, nas mãos desse macho escroto, um farsante, que merecia ser condenado por crime inafiançável.
Não podia imaginar tamanha canalhice.
Ele a convenceu de que ela seria a mulherzinha ideal para ser a mãe dos seus filhos. Aquele-papo-de-sapo-depois-que-a princesa-o-beija e ele vira príncipe. E de repente, ele virou um sapão. Sapo? Não sei se esse seria o bicho que ele merecia ser chamado. Queria vingança. Só sabia que depois que resolvesse essa questão nunca mais beijaria sapos. Seguiria a máxima das mulheres modernas: os assaria e os comeria acompanhada de fino espumante. Beija-los e acreditar neles novamente, jamais!
Ele foi seu primeiro namorado, seu primeiro homem, que se mostrava dedicado, apaixonado. No sexo, era verdade, faltava alguma coisa. Ela não sabia explicar, mas sentia falta de não-sei-o-que. Ele, por ser seu primeiro homem, sempre lhe explicava que as coisas aconteciam mesmo daquela forma.
Ela ficou pensando nas desculpas que ele sempre dava para evitar os encontros íntimos: sempre cansado, atrasado, ocupado, machucado, enjoado, empanturrado, amoado, amolado, descadeirado, emporcalhado, é... “ele era mesmo um porco” pensou. “Tudo era desculpa para esse safado”.
Muitas vezes ela teve sonhos malucos e se sentia culpada em te-los. Muitas vezes se imaginou no meio de belos, homens lindos, sarados, musculosos, tipo Brad, Clooney, Kanu, Thiago, Giane, Beckhan, muitos...lindos... em transas selvagens, tipo dessas vistas em filmes, com todos aos seus pés. Ela tipo uma deusa de bota salto alto, saia comprida, rasgada com fendas e muito bajulada por todos. Se achava pecadora com esses pensamentos. Uma paranóica indecente, que tinha ao seu lado o homem mais desejado e fiel do mundo e ela ficava sonhando com outros em transas quentes.
“Sou mesmo uma idiota”,...pensava ela... “uma idiota!”
Planejou tudo com detalhes.
Um dia antes da data do casamento, com tudo minuciosamente organizado para o dia seguinte, deu mole para o seu professor de spinning e experimentou o que ela só imaginava: sexo quente e selvagem. Quente, fervente, nas nuvens, instigante e ao mesmo tempo, apaixonante.
E ficaram assim até o dia seguinte quando a cidade foi invadida com vários, muitos outdoor,faixas,tipo marketing de guerrilha mesmo: da porta da igreja evangélica que freqüentavam e onde iriam se casar, a entrada da multinacional onde o calhorda tarado trabalhava. Na porta do prédio dela ao prédio dele. Do Leme ao Pontal, toda a cidade e toda vizinhança ficou sabendo o que pensava que sabia , o que a torcida do Flamengo imaginava que sabia, que as beatas pensavam que sabiam e não sabiam. Estava escrito:
“ELTON, EU SEI DA SUA TRAIÇÃO, SEU PORCO, IMUNDO, VIADO E MAL DOTADO. FIQUE COM A SUA TRAVECA MARIZETE, QUE MORA NUMA KITNET, NA RUA MOBILET,57, TEM UM CHEVETE 87, COBRA 10,00 POR UM BOQUETE E É AGENCIADA PELA IVONETE. Ah! COLOQUEI ESSE TEXTO NA INTERNET.FUI”
10 comentários:
Geeeente, eu ri demais do último parágrafo! Tá muito bom!
Mamãe..
Cris, bem gostei de seu texto!!!!
Me lembrou aquela música que as frenéticas cantavam....
' por isso eu sou vingativa...vingativa...vingativa...'
bjs, Monca
Amigona,
Adorei saber que a minha Maga Patológica, é também escritora, entre outras qualidades
Saudações astrais
Cris
GENIAL AMIGA !!! ADOREI!!! PARABÉNS !!!
Bjs,
Amei,Cris !!
Vc é uma escritora!!!
Vc sempre me surpreende com suas várias personalidades. Quase uma psicopatologia,diz a sua Homeopata.
Nesse texto não faltou nada do que lhe enumerei.Bem escrito,sem buracos,e levando a gente a entrar nas emoções todas. Parabéns !!!
Agora,treme !! Pra manter o nível,né? Hahahahahahhhh
Bjs,
Mari
Muito bom mesmo!
Gostei do desafio. Estou curiosa pelas próximas semanas...
bju grande
Parabéns
Cris, minha santa
Ao se revelar em mais esta atividade, você já começa revolucionando os costumes. Na era pós-Cris não cabe mais a expressão "homem da Renascença". No seu parto de escritora, mulher, nasceu a "pessoa da Renascença".
O Rei morreu; longa vida ao Rei.
Beijos
Cris, a-d-o-r-e-i!!!!
Não sabia deste seu lado "escritora"!!!
Beijos
Adorei, D. Escritora!
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