das coisas que vão mas ficam



Angra dos Reis, 12 de janeiro, 1984.


Querida Isabel,

Chegamos aqui semana passada. Faz mais calor do que esperávamos, mas as crianças gostam de correr pela areia e pular entre as ondas, então fazem bom proveito do sol. Sento na varanda e passo o dia tentando pintar. Não consigo. Veio a vontade de te escrever.

É difícil entender onde termina a areia e onde começa o mar. Penso na areia quente e nos pés dos meninos que se queimam um pouco. A noite chega e eu continuo aqui, nessa varanda que tanto conhecemos, olhando a tela branca na minha frente. Sinto o vazio de tudo aquilo que não existe mais. Você foi embora, eu vim pra cá, nada é mais o mesmo. Não sou a mesma pessoa no reflexo do espelho.

As crianças entram em casa rindo. Foram atrás do galpão descobrir de onde vinha o som das cigarras. Agora me dizem que querem sair para caçar pirilampos. O sapê do caramanchão despencou hoje à tarde, lembra que há anos já estava meio frouxo?

Sento dentro de casa, na mesa de jantar. De onde estou consigo ver o mar, e tudo que vem antes dele. Os meninos chegam e me arrastam até a cozinha. Vejo um copo virado com pirilampos voando dentro. Me vem um aperto no peito; uma sensação que não consigo descrever.

Sei que eu vou acordar amanhã e sentir sua falta. São coisas com as quais preciso me acostumar. Vou entrar na cozinha e sentir o cheiro de café, vou sentar na varanda e procurar seu nome na tela branca. Estou tentando entender o aperto no peito que me veio há pouco. Acho que é a idéia de que tudo pode ter um limite (não como a areia e o mar). Me lembra sendo criança e prendendo pirilampos num pote de geléia vazio, sentando ali em frente a eles até ver a luz se apagar. Me lembra nunca conseguir assistir os créditos no final de um filme. Me lembra chegar aqui e procurar o teu cheiro no meu casaco listrado.

Agora já vejo os primeiros sinais do amanhecer. É aquele céu ainda meio vazio, aquela hora do dia que você mais gostava. Engraçado pensar que passei a noite escrevendo esta carta. Preciso voltar à tela branca e o vazio que me esperam na varanda.

um beijo carinhoso,
eu.

4 comentários:

Anônimo disse...

Gabriela,

Adorei receber a sua carta. Por aqui ta tudo bem, sem criancas e sem sol. Do jeito que eu gosto. Eu sabia que aquilo ia cair, te avisei nao foi?
Tambem sinto muitas saudades. Eh uma pena que voce nunca achara o meu cheiro no casaco listrado, ja que eu trouxe ele escondido comigo.

Um beijo carinhoso,


Isabel

nagual1985 disse...

To com mtas saudades, Gabi!
suspirei constantemente lendo o texto...ta tao dificil passar os dias sem voce!
Achei as mudancas que voce fez bem acertadas mesmo, ficou mt bom!

to morrendo de saudades, amor!


Gabriel

Anônimo disse...

Lembrei mto da minha infância... Caçando vagalumes no meu sitio!
bjao

Anônimo disse...
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