
EU TINHA SETE ANOS
Certa vez eu fui criança, me lembro. E teve uma ocasião, num dia em meio a isso, que me recordo como se houvesse sido travada há minutos atrás. Eu fui visitar Seu Geraldo, que acabara de perder a mãe. Mamãe, a minha, que por sorte ainda tem comigo seus dias de lucidez, transferiu a mim tal edital de boas maneiras, ao qual eu, pequeno buliçoso dos dedos sujos de terra, tive de incorporar no pequeno trajeto cheio de mato, cobras e pirilampos que separava a minha casa da de Seu Geraldo. Queria, na realidade, poder consagrar minhas próprias palavras a ele, além do habitual e já apenas cordialidade… E eu, acho que apenas eu, sabia o quanto Geraldo amava a mãe.
O ambiente lúgubre me fez nauseado e, hei de confessar, minha maior e talvez única volição em dito momento era de evadir-me por entre as pernas dos chorosos e carregar meu amigo para bem longe.
- "Fala aí, Grande! Como vai com as meninas?" - foi como fui recebido ao derradeiro passo que sucedeu a porta de entrada. Hmm, não, as rugas da testa envelhecida de Seu Geraldo não ficavam bem se contradizendo involuntariamente, antes fosse proposital. Pregam por aí que os pequenos de tudo sabem. Permita-me que nessa hora me sinta superior? Se externasse minha mente certamente seria apreciado com escárnio, mas lhes digo que, sim, me permiti. Como posso proceder de forma contrária presenciando tanta superficialidade?
Eu queria que Geraldo chorasse na minha frente e berrasse a plenos pulmões. Eu o amava. Maléfico, masoquista, eu? Não. Eu o desejava por compaixão. Não me lembro ao certo o que respondi, se não me engano fiquei mudo, senti pena.
São 22h10 de sábado, do ano de 1994, estou estagnado numa cadeira de pau, paredes brancas, ou verdes, já não sei. Hospital costuma ser verde, fico com essa cor. Esperança. Ao leito, minha mãe em estado terminal. Não é dessa esperança que falo… A esperança que tenho, ou que consigo ter, é a de berrar, gritar, falar, chorar, desesperar, chutar, abraçar, pedir socorro, deprimir e, sobretudo, não me permitir omitir em momento de tamanha dor. Dor sincera: tal formatação é irrefutavelmente mais suportável. Acho que o que anseio, mesmo, é ser capaz de perceber o quanto a frase de Seu Geraldo marcou minha história. De falsidade quase palpável, pude perceber o valor do desespero e que preço tem a cordialidade vigente nas relações humanas, quando… Eu tinha sete anos.
6 comentários:
muito sensivel vc aos sete anos.
obrigada :D
ah, o texto é fictício :P
mt ficticia vc aos sete anos.
Muito bom! Ficção ou não...
AH!MARIANA, MUITO BOM !!!
GOSTEI!! BEIJO
Excelente,Mariana!
Seu texto...cada vez melhor.
Escreve muiiiito!!
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