
OVELHA NEGRA
Em meio à corriqueira valsa de fluidos inolvidáveis brota o teu projétil verde. É a cena mais desprezível da qual se é permitido tomar conhecimento no interior de quatro paredes de uma casa de saúde. Há quem diga que é das mais belas. Quando se trata de seu próprio projétil, talvez realmente seja.
Então agora se tem o filho: é o que chamamos de nascimento. Nasceu, é tão pequeno e tão feio e tão poderoso. Já vem de fábrica idôneo de arrancar de uma mulher madura toda e qualquer migalha de altruísmo presente nas periferias do útero recém-dilacerado.
Considera-se poder involuntário como válido? Há de se ressaltar que o miúdo fruto é, ainda, desprovido de valores. Na vida tudo é magistralmente baseado nesse negócio: se tiveres vontade de foder com a vida de alguém, ou simplesmente de foder, ou quaisquer outros aspectos semânticos do termo "sacanagem", terá seus valores alterados. Se desejares apenas dançar nu defronte a Câmara Municipal, igualmente.
Uma vida nova é, impreterivelmente, vazia: não se adequou à língua, a hábitos, a malícias, nem à sanidade, no entanto. Ninguém possui o privilégio de calcular que tipo vingará daquele broto. Exceto Marisa.
Encontrava-se na soleira da casinha de seus pais em Petrópolis, era fim de tarde e aproveitava para amamentar seu filho. Sentava e levantava, agoniada com alguma sensação que não sabia explicar, não tinha certeza se era física ou mental. Os carros ali passavam ligeiros, no entanto, se postavam em câmera lenta diante das divagações de Marisa. As rodas giravam de forma tão veloz que dava a impressão de imobilidade às calotas. Olhou para baixo e observou seu pequeno filho, igualzinho àquela roda, evoluindo e se movimentando por fora, enquanto por dentro era pura estagnação.
No mesmo instante em que recebeu fervorosos lábios ao seio, foi ao chão: presas inexistentes, ainda mal formuladas, aniquilaram seu mamilo como que fogo. Aquela criatura burra havia se auto-imposto o direito de explicitar tão prematuramente os valores que pretendia formular. Não podia.
Aos oito anos, Marisa encontrou-o seco e impune, deitado ao chão. Ao afastar a cabeça, um fino filete de sangue escorreu até seus pés, exprimindo uma navalha na altura da nuca.
A partir de então, gozou da jornada ao máximo, cética aos que diziam que era finita. Teve outro filho, esse sim, de coração intrínseco e romântico e cativante.
Era, enfim, feliz.
8 comentários:
hmmm.
Precisamos conversar sobre este texto,muito bem escrito, mas me deixou inúmeras indagações...já deixo em pauta para o nosso próximo encontro.
Beijos
Cris
Hahaha que fique claro que nada presente no texto representa uma opinião minha, é ficção :PP
Bjooca Cris
claro que representa!!!! nem veeeem!!!
ms isso eh bom neh.
O_O
Claro que não representa, gente... f-i-c-ç-ã-o.
POLEMICAAA
Mariana, li seu texto ontem de madrugada, e não consegui postar comentário. A janela não entrava.
Adorei o texto! Vc. sempre traz temas fortes,bem escritos e bem colocados. E sei também que é ficção. Parabéns!0_0
Maravilhoso,Mariana...
Muito bem escrito,como sempre.
Forte,denso,porrada, como tudo que vc escreve.
Adorei a descrição comparativa da estagnação e imobilidade.
Ficção ou não,o que interessa é que está lindo. E sempre.
Sou sua fã!
Nem penso nessas questões, tudo é real e tudo é ficção quando a gente escreve...quero falar é do texto mesmo!!! Te vejo na próxima reunião nem tão secreta assim...
Mil Beijos
Cris
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