VAGALUME

A palavra e o seu significado nem sempre andam juntas e, na maioria das vezes, me pergunto o porquê - ou como - que determinado nome foi dado a um objeto específico. Todas estas indagações são provocadas pela curiosidade sem muito propósito, pela falta de uma explicação interessante e, por último, ignorância minha mesmo. No entanto, existem os casos em que o vernáculo é o próprio objeto em questão, combina geneticamente – se posso fazer esta licença científica – ou seja, dá significado real e genuíno à coisa nomeada, sem muito esforço. Avançando mais além, existem as situações inusitadas em que objeto e nome, apesar de absolutamente estranhos um ao outro, acabam por se consubstanciar em um profundo sentido. Ainda que distante do significado do título a ele conferido, o objeto, muito embora bastardo de nascimento, absorve o nome por incontestável mérito. Traz um outro conteúdo à palavra - e a gente passa a enxergá-lo abarrotado de novas propriedades e poderes de entendimento. Não se sabe mais quem veio primeiro, a coisa ou a nomenclatura.
Faço este preâmbulo esquisito para falar do Jorge. Não o conheci, mas me contaram fielmente. Soube hoje que, ele, Jorge, era um vagalume. Houve quem se iludisse ao supor que se tratava de um homem, um homem comum. Mais que um nome próprio, substantivo masculino, Jorge é gente e bicho, pássaro voador, menino e bailarino, pirilampo com sua dança do imaginário.
Corpo forte - pernas, ombros, abdômen e o plexo luminescente – com o qual nas noites sem luar faz brilhar os palcos, o céu, e os olhos da gente. São holofotes as luzes, esta dança, a luz amarelada e quente. Vaga, vagalume, corpo livre no cárcere da mente.
Brilha na escuridão deste mundo. Mostra os lugares, os rumos, a quem falta arte, criação e vontade. Explode na noite eterna o lume, os pontos, esta cor que aos nossos olhos cegam. Pirilampo, vagalume, salta, salta, salta bem alto e faz estranho barulho no silêncio noturno do verão. Vem inquietar esta falta de som, vem com teu corpo desapegado e espontâneo, natural e livre, e brinca de acende e apaga...
Infantil e louco, vem mostrar com seu corpo, o desentender imenso e pleno, o movimento, vem mostrar com seu corpo a ausência de limites que equilibra a gente. Salve, Jorge! Vem assinar seu nome, que eu vou olhar para o céu e ver você riscando a noite escura!

5 comentários:

Anônimo disse...

Nossa como vc escreve bem e bonito.
É um prazer a leitura dos teus textos.
bjus e bom dia!!!

nagual1985 disse...

jorge eh o cachorro do rafa.

Anônimo disse...

Lindo o texto - de uma poesia, musicalidade e singeleza incríveis! E um belo exemplo da arbitrariedade do signo (palavra x significado)

Anônimo disse...

PRÁ VARIAR MUITO LINDO!

Anônimo disse...

É mesmo,Cris...Como vc escreve bem. Envolve.
Muito bonito! Mais uma vez!
Bjs