Naquela tarde, Jorge saiu do cinema sem imaginar que morreria dali a trinta horas. Em Paris, tendo vindo da Inglaterra – onde estudava -, o homem de estatura média e um par de olhos azuis irritantemente perfurantes caminhava através de uma rua estreita, dissolvendo-se pelas entranhas dos paralelepípedos. Entre pombos e putas, Jorge encontrava-se não absorto em pensamentos lúdico-românticos, como era intimado a quem se postasse sob aquele cenário – em vez disso, tudo que o homem de dezenove anos conseguia sentir era fome. Fome de pão, de bala, de macarrão. Fome de revolução, de evolução, e uma vontade sobrenatural de permanecer estagnado, inerte, apesar de todo seu apetite.

Assistira um documentário sobre manifestações estudantis conta o governo francês eternizadas em uma década qualquer. O filme inspirava, sim, desejo. Ou melhor, garra. Porém Jorge, paradoxal como sempre fora, sentia como tentando mover-se e encontrando uma barreira sólida. Como se sua alma erguesse os braços e gritasse, sob a pressão do corpo carnal impedindo qualquer ação.

Era ano de eleições presidenciais em seu país e, mais uma vez, um corrupto sujo levaria a melhor. A sutil diferença, desta vez, era que lhe faltava o dedo mindinho na mão esquerda, e era o mais desprezível dos cães que constituíam o leque de opções. Que seja, este ano Jorge não votaria, mesmo. Estava na Europa há seis meses e não retornaria tão cedo.

Sentindo-se mal, o rapaz entrou no apartamento alugado, pulando os badulaques espalhados ao chão – puta merda, que mulher bagunceira, pensava – para chegar até Marie. Ela estava atirada na cama de bruços e pernas abertas sob uma saia curta, que deixava a mostra um par de coxas roliças. A visão deixou Jorge excitado e, colocando um membro grosso para fora da calça, se ajoelhou sobre a cama e masturbou-se. Num impulso, rasgou de um puxão a saia da francesa, introduzindo um pau latejante em sua boceta seca. A mulher pouca reação esboçava, estava drogada, ao que parecia. Jorge vivia dizendo que detestava dividir a casa com uma viciada, o que fazia com que ela o provocasse cada vez mais. Os dois se odiavam.

Jorge não sabe quanto tempo permaneceu metendo, estava tão transtornado que só se recordava da raiva com a qual dilacerava o útero apertado que dali a alguns meses lhe proveria um filho. Gozou após muito tempo.

Ao acordar na tarde seguinte, Jorge foi tomado por uma sensação muito gostosa, que se assemelhava ao sonho que outrora tivera no qual era capaz de voar. Abriu os olhos ao findar de uns três minutos e deparou-se com uma cena assustadora, que incrivelmente atuou como tranqüilizante. Viu seu corpo decorado com sangue fresco, dilacerado. Seu pênis encontrava-se arrancado do corpo no fundo da cama. Em segundo plano, estava Marie encostada na pia cortando cebolas.

Jorge levantou-se - em paz e transparente - e subiu.

5 comentários:

Anônimo disse...

Uau!
Mais um,excepcionalmente bem escrito,que me faz ficar com o ar preso no peito,até a última palavra,onde daí fico extasiada por muitos minutos olhando as palavras espalhadas ali,....assim como eu.
Bonito,forte,denso,impactante e muito mais.Parabéns!

Anônimo disse...

Me surpreendeu o lado Ideológico, político, retratado de maneira fácil e direta, Acessível, e de uma escrita Impecável.
Me senti empolgado ao ler o retrato da nossa politica atual, que, de alguma forma, está explícito no texto.
Percebo tambem a sua indignação com tal cenário.E isso me animou, muito mesmo, por se tratar de uma escritora jovem, falando para uma maioria jovem, expondo suas idéias, enfim, todo um processo anti-alienação escrito de forma clara(coisa dificil de encontrar)
Achei que o texto deveria ter continuado nesta linha, estava envolvente, ainda mais no momento atual, de eleição....
Desta vez o seu suspense, que sempre me prende de forma estranha, louca, me revoltou um pouco.
Você tem estilo,e agrada muito, ao contrário do que afirmam certas jornalistas(ABI). Mas dar um passeio por outras áreas pode parecer interessante.

Mariana Bradford disse...

HAHAHAHAHAH arrasou, Paulo. Morri de rir do lance da ABI hahahaha, obrigada querido!!!

Marih sempre fofa :~

Cris disse...

Você sempre aguça a minha curiosidade, e sempre me surpreende!!! Beijos,
Cris

Anônimo disse...

Muito bom. Instigante!
Bjus