
o palhaço e a prostituta
era assim: Ele olhava ela de longe, atravessando a rua e ajeitando a bolsa grande nos ombros magros. Ele escolhia sentar ali, onde a grama encontra o concreto e a chuva fica parada no canteiro. Fumava um cigarro mas tinha que ficar de olho, que era pra não ser pego. Queria levantar pra pedir um beijo daquela boca que parecia cansada de beijar. Porque ele queria uma mulher de verdade, e no circo era só disfarce. Queria entender aquele escuro que via nos olhos dela.
era assim: Ela olhava os minutos passando no ponteiro do relógio, e quando dava a hora certa lembrava que tinha que levantar. Saía de casa todo dia às oito e quarenta. E levava na boca um gosto de vinho azedo, daqueles que se compra em loja de conveniência. Quando atravessava a rua, olhava aquela tenda colorida de longe, do cantinho do olho. Queria claridade, realidade, e na noite só sentia disfarce. Queria aquele palhaço com olhos pintados tão branco que brilhavam que nem calota de carro.
foi assim:
Aconteceu na entrada do parque. A tenda dizia “BEM-VINDO AO CIRCO”. E ele pensou, apressado, que o tempo era curto, que a vontade era grande. Ela olhou fixo através daquele rosto colorido, e teve medo de perguntar.
E explicou pra ele:
- sabe o que é? eu me cansei de viver de coisa escura, porque na noite nada se vê. quando não tem luz é só tristeza, não dá vontade da gente viver.
E ele falou de volta:
- mas senhora, aqui no circo não é tão bonito, embora pareça ser. eu sou palhaço mas sou triste, também cansei de sofrer.
Trocaram palavras curtas, daquelas que dão medo de dizer. E a sensação que veio foi boa, uma de quem sente prazer. Trocaram o primeiro beijo ali, no canteiro molhado de chuva. O suspiro dos dois foi forte, ficou branco no ar e subiu como nuvem. Veio outro beijo. Seus lábios se tocaram, vermelho de circo com vermelho de carne. Era a mesma cor, era a mesma dor, a saliva derreteu o disfarce. E já não se sabia mais quem era feliz e quem era triste.
6 comentários:
Amei, Amei, Amei.Beijos,Cris.
QUE TEXTO LINDO!
Amei, tá demais!!
Super texto.Amei!!beijos
Gostei dos vermelhos e dos marcadores temporais... Apesar da minha dificuldade em começar a ler o texto - eu e palhaço não dá, né - valeu a pena ir até o fim!
bjaao
muito bom o paralelo entre o palhaço e prostituta, tristes provedores de prazeres - e linda a imagem da fusão dos dois, do vermelho e da dor, num beijo que lhes derrete o disfarce..
achei maravilhoso, gabiiiiiiiii!!!!!!!!!
tres palavras curtas que dao medo de dizer:
eu te amo
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