
Miséria
Era como se adentrasse um antigo lar. Os ambientes se dissolviam em remotas lembranças que, juntas, completavam o quebra-cabeça de sua infância e adolescência. Com um olhar quase poético, ele não ousava extravasar a tímida espiada através da janela: sabia que, dentro, não seria bem-vindo.
Lembrava do tempo em que seus dedos eram limpos e lisos e tocavam o prato de comida que agora servia a meninos que, muito provavelmente, teriam o mesmo destino que o seu. Lembrava do tempo em que seus ossos eram revestidos por grossa capa de gordura e eram escorados por camas beliche.
Lembrava do tempo em que uma loirinha de tranças jogava charme e queria namorar; lembrava de quando amar não doía. Lembrava do tempo no qual o saudoso orfanato abria as portas e aquecia seu penar.
Agora era apenas mais um ancião das ruas da cidade, perdido entre os vãos de pedra portuguesa, entre lápides de cemitério e grãos de areia. Um velho moribundo enxergando nostalgia onde não tem. Uma (des) culpa de quem não tem mais onde buscar alegria.
2 comentários:
MARAVILHA, MARIANA!!!BJS
Lindamente triste e angustiante.
Lindamente amedrontador.
Lindamente escrito,mais uma vez!
Beijos,Mariana!
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