
NATASHA.
Sempre acordava às oito horas. Não precisava de despertador. Sentava na cama, esfregava os olhos e olhava pra frente. Via o quadro que sua mãe havia pintado pouco antes de morrer. Era uma floresta que parecia não ter fim. Natasha levanta já sabendo que seu dia não será tão agradável como de costume. Escova os dentes e repara que suas olheiras estão cada vez mais profundas. Lava o rosto e sente vontade de passar um batom. Mas não passa.
Na cozinha ela faz uma vitamina de banana, bebe e deixa o copo sujo na pia. Olha os avisos pregados na geladeira e se dá conta de que hoje é o dia de seu oftalmologista. Fica feliz. Vai sair da rotina.
Toma um banho, coloca uma saia preta e uma regata branca. Natasha sempre foi muito básica. Pega o ônibus até Copacabana. No meio do trajeto Natasha não consegue controlar sua felicidade e solta um sorriso. Olha pro lado e pergunta as horas. Natasha queria contar pra alguém seu destino.
- São nove e meia.
- Obrigada. Eu vou para o oftalmologista.
- Ah.
É seu ponto. Puxa a cordinha e desce agradecendo o motorista por ter feito seu trabalho de forma correta.
Santa Clara número 276, é aqui. Natasha entra no prédio, fica na fila do elevador impaciente. É o nono andar. A consulta estava marcada pra dez horas. Nove e quarenta, e nada do elevador chegar.
O sorriso já havia sumido. Ela estava nervosa, não podia se atrasar. Olhou pra escada. Lembrou que eram nove andares, olhou pro relógio e dois minutos já haviam se passado. Natasha corre até a escada e quando sai da fila o elevador chega. Tarde demais, não daria pra ela subir nessa leva.
Ela corre pelas escadas. No primeiro andar está com fôlego, no segundo também, no terceiro tropeça e bate com o joelho no degrau, tudo bem, continua, no quarto começa a suar, no quinto já sente dor, no sexto pára e observa que seu joelho sangra e seu tornozelo grita de dor, repara na textura do sangue, mas ela não tem tempo, no sétimo um casal de velhinhos que tem pânico de elevador está descendo vagarosamente, dez e cinqüenta, Natasha os empurra e continua sua saga, oitavo andar, só falta mais um, nono andar, número 907, onde... Onde... ahhh, ali onde tem uma placa. POR MOTIVOS PESSOAIS O DOUTOR SILVEIRA TEVE QUE FALTAR. AS CONSULTAS DE HOJE FORAM REMARCADAS, OS PACIENTES QUE NÃO OUVIRAM A MENSAGEM DEIXADA EM SEUS CELULARES, POR FAVOR NOS DESCULPEM.
Natasha não havia escutado.
Agora Natasha não precisa mais de um oftalmologista.
5 comentários:
hahaha! mt boa a ultima frase!!!! ahha! mt legal
bjao.
auahuahuahauha gostei mto desse!! Parabéns!!
Eu gostei sim sua bobona!
Nunca confiei em oftalmologistas que tem consultório na Santa Clara!!! =/
ADOREI!!!! LINDA!!!!
Bjusss
Bacana,Carol!bjs
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