Da Poesia II

Um dia falei para alguém muito intelectual que o problema com a poesia era que “todo mundo” em algum momento da vida - em geral vivendo uma grande dor, de um grande amor sofrendo - se arvorou em ser poeta. Fosse no diário da adolescência ou em cartas de amor ridículas, mas pertinentes naquele momento, o sentimento do poeta que gostaríamos de ser vinha à tona para nos dar coragem de conquistar, para nos fazer inspirados, e confiantes, no poder de seduzir. Não fujo à responsabilidade de também ter usado deste artifício a questão é que os anos dourados da primeira juventude há muito me deixaram e, no entanto, continuo do mesmo jeito. Como disse antes (Da Poesia I), viciei, agora já era, estou até o pescoço, e não quero que nada mude, quero continuar tentando escrever alguma coisa que preste, que valha uma passada de olhos, um pacote de amendoim, uma risada irônica.

Mas o episódio do homem intelectualzinho, o qual me foi apresentado por essa amiga surpreendente C.Braga, é o seguinte: o elemento usava blazer azul-marinho, falava gravemente e entre um pigarro e outro que ele usava como ponto e vírgula, conversamos sobre poesia. Estávamos no escurinho do Tablado e eu, em silêncio a ouví-lo. O que exatamente conversamos não lembro, falava de política – era um expert – e basicamente um chato. Escritor finalizando um livro. Então, eu solta, espevitada, engatei no assunto com emoção. Já disse por aqui que tenho uma marca de nascença, a timidez, esse jeitinho esquisito que provoca reações inesperadas em mim e, nos outros, mais ainda. Digo isso porque minha timidez é do tipo reativa. Ocorre que na compulsão de não sê-lo, na vontade indomável não cair no vácuo, sou capaz de respostas inapropriadas aos estímulos externos. Faço ironias que só a mim completam, só ao meu humor têm sentido. Sou caso a ser estudado. Embalada no álcool ou a seco, trafego do extremo silêncio ao comentário aguado, da concordância mansa, ao discordar digno das bancas advocatícias. Tropeço nos tapetes das festas, cumprimento desconhecidos com intimidade e desvio os olhos de quem gostaria muitíssimo de encarar - em todos os sentidos – sou caso perdido.
Por isso devo dizer que neste dia, do Sr. Intelecto e Enjoado, eu estava sem assunto, diante de tamanho doutor entendido, porém ele veio tocar neste assunto, a Poesia. Ao ser instigada a falar sobre o tema, minha paixão e minha timidez se misturaram de forma bombástica. Confidenciei a ele, com a voz já em sobressalto, que a poesia como gênero, na minha opinião, era um prazer destinado a poucos, pois poetas, poetas de verdade, podíamos contar nos dedos, e me recusava a citar nomes, dos famosos falsos poetas que andam por aí...
Cabe aqui ressaltar, que a minha falta de simpatia pelo recém apresentado foi ingrediente decisivo na minha total falta de tato.
- Amigo, disse eu, poetas são poucos, agora vou lhe dizer que existem uns palhaços, sem a menor noção que se dizem poetas, esses camaradas deveriam ter vergonha, eu não me atrevo a dizer que faço poesia. Uma gente que não se enxerga. Te digo que não admito dizer que faço poesia porque eu tenho senso, sei o que escrevo. Posso amar a poesia e desejar muito e até me sentir poeta, mas fazer poesia mesmo, que valha a pena, tem uma grande diferença, é uma longa distância. É preciso ter discernimento para entender o quanto é difícil, difícil demais. É preciso ter muita cara de pau para dizer - Faço poesia. Eu não me atrevo.
Depois disso, o mais tenebroso silêncio tomou conta de nós, a peça começou e no intervalo ele foi embora, não sem antes me pedir que desse uma olhada e uma opinião sincera sobre as poesias dele - afinal faltava pouco para a edição - apesar do livro ser sobre política . Assim foi que nós nunca mais nos encontramos.


Poetrys lady

Deixe que o amor cresça na distância
E dele se afaste toda a facilidade
Faço assim com meus amores
E de um mesmo modo com meus poemas
Obstinadamente quero o amor viver
No balanço dos versos
Na cadência da métrica
Na ausência da rima
Com a generosidade da língua

5 comentários:

cris braga disse...

hahahahahahahahahaha...

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Liz disse...
deliciosamente diverido e verdadeiro. Assino embaixo e digo que de minha parte, o que as vezes consigo, é descrever minhas emoções e sentimentoscom alguma fantasia e muito floreio...
pq a vida sem glamour ninguém merece!

10:09 AM

Anônimo disse...

Vc tá demais !!

Anônimo disse...

eu sou caso perdido cris... mesmo!
Assim será que nós nunca mais nos encontraremos... crescendo, ou se perdendo na distancia!