
Para Ananda que me sugeriu o tema e deu várias contribuições fundamentais ao texto, obrigada pela inspiração
Sob encomenda ou o beijo que eu queria dar
“...os pares, se encontram, assim do modo que deve ser, naturalmente acontece porque para o sonho, quando você o deseja muito, todo o universo conspira, conspira no gesto, no gosto, na falta de lógica, conspira no beijo...
...o silêncio, o sentir do prenuncio - a pré morte – diante da aproximação de alguém, respiração, lenta como um vento quente da tarde que paralisa o corpo, a chegar tomando conta do espaço. E não há mais espaços, o que há, o que posso ver na curta distância que alcanço, onde meus olhos focam, são quadros, são as partes, lábios, reentrâncias, detalhes, me esperando, e que eu teimo em dizer me esperando, mas seria ingênuo qualquer ato da razão quando se sabe que não há tempo, não há esperança, o que há é a certeza de que os pensamentos atrapalham e os beijos se atraem...
...o som alto, as luzes, o ar quente da tarde, a multidão me engole mas sei que vou encontrá-lo aquele a quem hoje devotarei o resto do dia, são quatro horas da tarde, abafado, poeira, mas sei que vou encontrá-lo pois não existe lógica quando os pares se atraem...
...a noite continua quente, o céu negro, lua esfumaçada, quero fumar um cigarro, acende um, me passa, te olho entre a fumaça, e como me arrebata, tudo o que fazes sem querer, a espontaneidade tua me traz o silêncio, e essa música então, me faz camaleão, ausente com meus pensamentos, me concentra mais em ti, me preenche, porque afinal só os corpos se atraem (penso no Manuel, velho Bandeira, quantas vezes me salvou, tísico e sábio, soprou no meu ouvido)
“- As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”...
..vem, vem meu bem porque o meu colo te espera, quero perder este foco, da boca e da curva do teu queixo, dos pequenos nódulos da tua garganta e com todas as partes que não vejo vou construir um beijo, penso que a emoção também é uma forma de arte quanta coisa abstrata crio, quero essa arte agora quando te vejo, eu não te vejo, eu te beijo, e você já não é mais o mesmo, é esta conjunção de pedaços que fazem espécie de arte que crio enquanto te beijo, porque eu não te beijo simplesmente, como quem faz uma rotina de todo dia, não são duas bocas que se tocam, se te beijo te esquadrinho, te descubro, te invento não te beijo como quem dorme e acorda e acorda e sonha que sonhou mas nem sabe...porque eu não te beijo com boca, eu te beijo com o corpo inteiro!
Bandeira
I.
A tua boca tem um gosto que não posso dizer irresistível,
mas no sonho ela me busca tão diferente, tão pura
e sabe ser tão humano o gosto da boca tua
A tua boca tem um gosto que não posso dizer conhecido,
mas é tão natural, displicente que quando me toca provoca
uma revolução indecente
II.
A tua boca tem um gosto que não posso dizer inocente,
É a noite escura e doce, tão única e tão quente
É um berço, um lar, um ventre a sua boca na minha mente
E traz um conforto que já conheço
Uma desesperada alegria, a tua boca pousada na minha
III.
A tua boca tem um gosto que não posso dizer perfeito
É antes o imperfeito completo de natureza e desvio
Quando estar morto é estar ainda mais vivo
Saio do corpo e não respiro, estou expandido
Consciente e alerta do circular gozo etéreo
Para fazer da tua boca uma elegia a antimatéria,
Um elogio a este gosto que trazes contigo de um paladar do infinito
3 comentários:
afinal d contas... meu querido tu: - um beijo é um beijo!
bonito! bjs Cris.
amei mae... muito legal!!
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