
Emoção de toda vida
Quase sempre penso a vida na teoria, resolvo, determino, elaboro. Um perigo.O que me salva é a vida na prática, a mudança, o caminho que não traço, a descoberta das palavras, a maior loucura de todas, o que poderia ter sido e não é.
Eu chamo a vida para mim, aceno, e às vezes ela não obedece. Indomável, impermanente e difícil, é a surpresa e o susto do improviso. Vem, eu peço - me arrebata - ela gosta e eu também. A graça da vida é o presente aceito - ela faz o que não fazemos, ela mostra o que o que não sabemos. E salta dos meus olhos, e exala pelos poros, a inédita estréia dos dias, a aventura da dúvida, dia a dia me convida para a revolução do pensamento. E na busca, pelo direito de ser dona de mim, me rendo a um secreto mundo que borbulha no sangue, no pulso, na veia do meu pescoço. A vida, tranquilamente, dormita mas exige emoção. Então, de repente vem o espasmo, mora no diafragma este viver ofegante, o sentimento sem nome que trago nos meus olhos cheios d’água, na marca da minha íris, dores, onde um pensamento são vários. Vive em mim, passeia, o excêntrico amor que ainda não conheço.
Sinto que a paixão é cansativa e do avesso, o amor é triste conceito, e agoniza, se anda a faltar a emoção.
É só emoção o amor que desconheço, não nasceu, fecunda, não vem do outro, está na gente.Abraça e não desdenha, agrega cuidadoso. Por vezes sofre pelos salões, mas segue maior e mais incontido. Não grita nos palanques, não se propaga nas esquinas, lateja como um murmúrio, erótico e silencioso. E eu a quero, emoção minha, com uma vontade insana, com mimos, carícias, com palavras estranhas e risos, porque os acontecimentos passam mas eu guardo a poesia. E por saber minha, por vezes a mantenho infantil e leve, e como se fora um experimento - de ser sério e brincar - ao montar um quebra-cabeça o mundo se mostrasse para mim. Estou a encaixar as peças e a cada nova figura outro desenho se forma e - aos meus olhos vão mudando os formatos - quando tudo recomeça.
E nesta brincadeira, sou só, sou o mundo, sou outros e muitos, um viver dentro, um viver para dentro, uma espera humilde. Sou a que vai até o rio beber daquela água muito brilhante, e ainda que não tenha sede, a entorna pelo rosto, de forma a molhar a boca, apenas a sentir um gosto. Sou aquela que se despe e se banha nua e cumpre um ritual para que a felicidade se torne simples. Sou esta mulher que se rendeu sob o céu azul e límpido e nada mais fez além de secar-se ao sol, sob o sol brando, e ao sentir a leve brisa na pele deitou-se displicente sobre uma pedra. Porém, como se sofresse uma febre, mergulhou no rio novamente e se entregou até o cansaço do corpo, até ficar diluída. Sou a que vestiu as roupas e estas lhe ficaram úmidas das águas novas e translúcidas.
2 comentários:
Belo Texto.
beijos
Nossa,Cris!
Um dos melhores!
Parabéns,mais uma vez,e....
Feliz Ano Novo!
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