O Corpo da alma

Sinto com a alma e decerto é uma mania estranha o modo como tento mantê-la intacta, sentir sem o corpo, levitar, creio, errei de bonde, qual é esse o vagão que não me avisaram estar? No avesso e na contra-mão, sem freio, é tudo inversão, onde a paisagem é apenas um fundo, uma imagem a correr e a borrar e aquele, na poltrona perto da janela, sou eu, o que está parado a olhar.

O vento no rosto e no vão da janela os braços dormem apoiados no que está.

Não me entendam mal - eu não sei olhar o mundo, não sei o que pensar - sinto de todas as maneiras possíveis mas apenas o incompreensível me satisfaz. E ainda que me dê prazer sentir com a alma, do corpo sou totalmente a favor, do belo ao belo, sempre belo, digo não à beleza redonda, bem acabada, digo muitas vezes sim ao que não se revela, ao sem explicação.

Sou saudável no desalinho da interpretação.

Jogo a alma no mundo e trago o mundo comigo como um universo sem fronteiras. O corpo é o concreto, é pequeno, o limite –microcosmo perfeito - é a Bélgica do meu desejo. A ele homenagens presto, ao corpo que sinto, ao que imagino, ao que posso tocar. Amo, me rendendo ao corpo de alguém que só eu vejo, e conheço sem olhar, corpo relíquia, jóia de perfeição, bonito não, belo, belo, sempre belo, tão animado e vivo, objeto puro, meu nome no mundo. Meu corpo é Deus, o corpo é alma, a alma existe, e o corpo sou eu.

Um comentário:

Anônimo disse...

adoro essa sua intensidade nas palavras... saudades, bjs