A Arte de Ser Comum

Tem dias que acordo e logo sinto hospedado em mim -refestelado na matéria corpórea- o inconveniente cansaço. Sou assim. Enjôo da minha pessoa, da roupa, do sapato, do cabelo e até me desconheço. Tem dias que o meu desejo retumbante é não ser eu.

Entro no banco e em pé na fila, vagueio, vai longe o pensamento enquanto observo as pessoas e tomo conta da vida alheia. Chega a minha vez, encaro o bancário a digitar o teclado e atento ao troco. Naquele instante quero ser ele a desfrutar da paz matemática que lhe refina o movimento - de nove às cinco com uma para o almoço - com o ar condicionado polar distribuindo a calma pelos cantos do ambiente.
Quero este mundo de certezas.

Semana passada quis ser a recepcionista do instituto de depilação, a moça que me recebe com as mesmas perguntas e saudações. Já quis ser também o taxista que terapeuticamente conversa com os passageiros durante sua jornada e quando chega a noite, ao voltar para casa, gosta de assistir aos programas da TV a cabo, enquanto sua mulher lava a louça do jantar - e assim criou dois filhos na Universidade.

No entanto, não me ressinto, não reclamo da minha dificuldade para o senso comum, faço uma constatação da diversidade e sigo em frente. Tenho eu minhas táticas na busca do que me faz sentir na massa, na tranqüilidade repousante da boiada, aquela mansidão segura onde a vida evolui sem atribulações, onde tudo é como deve ser, e ponto. É na urgência por aquilo que me fará ruminante e de olhar sossegado, que entro na padaria e peço uma média com um pão na chapa. Quando é caso de incisão sem anestesia apelo para a coxinha, sem o catupiry, e café no copo...mas só faz efeito quando bem próximo ao almoço.

Uma amiga, a quem deixarei no anonimato, me revelou sua experiência com o risole de camarão em uma padaria bem freqüentada no Jardim Botânico. Foi um caso além da imaginação, porém real, quando o salgadinho ao ser retirado da vitrine, de tal modo dobrou de tamanho, que minha amiga, assustou-se. Comeu e hibernou dois dias antes da próxima refeição, deu risada e foi feliz. Não, a moça não faz uso de nenhuma substancia alucinógena - chás, ervas e afins - por outro lado, sabe tudo sobre a mágica de ser comum.

E ser comum não é um estado menor, um adjetivo pejorativo. Ser comum é o mérito de possuir uma aceitação plácida do cotidiano, sem padecimentos febris, sem grande metafísica. Ser comum é uma arte, sem repiques no diafragma, e sem cuícas a repuxar as aortas.

Um comentário:

Anônimo disse...

É amiga ... a "mágica de ser comum" !!!!!! Difícil...rs...tá lindo, como sempre....beijus!