"Sinto, logo escrevo"

- Você sabe?...
- Quê?
- Que você é estranha?
- Sou?
- É...
(silêncio)
(risos)
- Em que sentido?
- Estranhamente bom...
(silêncio)
(risos)

É o que dizem e quando não dizem pensam.
Concordo. Tenho uma tendência para a estranheza, mas do tipo discreto, com uma vontade enjoativa de estar no contexto. Sei não, sei lá. A expressão: “sinto, logo existo” me atraí mas me transforma em uma fábrica ambulante de equívocos. Nem sempre para mim, às vezes para os outros.
Talvez, nascer antes do tempo, e reconhecer a vida na ponta da agulha, tenha me perturbado os nervos de tal forma que as adversidades gravadas na minha pele e, até hoje, as situações dramáticas, provocam sentimentos heróicos. Urgência e medo me deixaram a percepção em outra freqüência, imprimiram a sensação de que a vida – por ser uma mistura do infinito com o breve instante – é uma melodia inacabada onde não cabe uma nota qualquer porque existe um som, o som, que irá pontuar a aventura da descoberta, do assombro, do frescor das alegrias. Viver é um tema musical variado e tem a vida uma trilha sonora onde em cada partitura se conta uma história - ou seria o inverso? Ah, eu que desde cedo descobri o poder das histórias e a graça das melodias estou a dançar na busca do sonho. Trabalho delicadamente, na ponta do lápis, a sentir o movimento das notas, a respiração, as pausas e em cada pedaço de realidade - fatiar, rechear, compor uma saga.
Escrevo.
Escrevo como um dom de alfaiataria para vestir a realidade,interessante, original, sob medida.
Escrevo a bico de pena, esculpindo as letras em uma caligrafia nervosa e ininterrupta para que me seja a vida um prazer dos sentidos.
Escrevo, a invenção da vida, a narrativa dos fatos - na imaginação - e abrem-se os portais ocultos, me dou por satisfeita, diante da possibilidade de seguir em frente. Não quero a explicação, vou simplesmente viver o mistério. Escavar, cuidar, mergulhar, inebriada e lúcida, desembrulho palavras, ouço, faço nascer outras vidas. Esqueço todas as crenças e atravesso o tempo blindada por este prazer.
Finco nas distantes terras - onde ninguém outrora pisou - a minha bandeira sem rótulos. Sou comum.
Escrevo.

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