Elipse

Deito à noite em minha cama macia. O peso dos músculos fatigados e queixosos dá lugar à leveza trazida pelo sono. Mergulho em um torpor prazeroso, ouço as crianças em off, a casa em off, a rua em off, ufa ... mas que dia. Seduzida pelo início da viagem que me arrebata, gentil e, a esta altura, irreversível. A antropofagia da velhice desacelerada, a CPU em standby,
preocupações, agendas e neuroses suspensas até o próximo toque do despertador.

Minha trégua diária. Meus sonhos. Minhas saudades transcendentes a este mundo. Meus reencontros. Minha solidão insuspeita. Meu silêncio. Minha paz.

Mudo a lente.
Minha perspectiva
astral deliciosamente
se ajustando, se ampliando;
hora de transcender, meu Google
Earth particular acionado. Zoom out.
Volito em impulsos de golfinhos no
oceano; uso as pontas dos bambuzais como
catapultas, as montanhas como trampolins, tangencio
a ressaca na praia, dou um rolé nas Cagarras, zapeio pelas
fiações das ruas. Vento em meu rosto, respiração acelerada, pulmões
escancarados. Recarrego-me no metafísico. Retorno no final da madrugada à minha cama macia.
Zoom in.

3 comentários:

Cris disse...

Que bom te ter por aqui...surpresas boas como essa me aguardam toda semana? Ôba!!!

Anônimo disse...

Opa opa, veja s� zoom out, zoom in, feliz por ler voc� quem � voc�?, quero mais.

cris braga disse...

Delícia de texto!