
Pimenta Dedo de Moça
(..)Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos. (...)
Oswald de Andrade – Trechos do Manifesto Antropofágico (1928)
Erupção controversa, atemporal, hyper modernista. Advogado, mestre filósofo, escritor e jornalista. Oswald. Um homem sem profissão. Visionário. Sabia que a antropofagia a tudo se presta como uma necessidade da existência. E muito embora já não precisemos literalmente jantar o outro, o mundo ainda é uma caverna que nos separa, acima das castas, entre os que comem e os que são comidos. E a baixa antropofagia anda mais baixa ainda.
Não há dúvida que Oswald era um glutão em todos os sentidos, comeu a vida com vontade, nunca fez uma dieta nem se privou dos sabores e do movimento, com muito tempero e pimenta dedo de moça. Metralhadora verbal, de textos afiados, o imagino nos dias atuais a deglutir toda espécie de informação e regurgitando - sobre o caldeirão digital de mídias convergentes altas doses antropofágicas de sarcasmo e inteligência. Estaria, sem dúvida a desconstruir algum “chato boy” de plantão.
Hoje o Tupy or not Tupy se juntaria ao “To Eat or not To Eat that is the question”.
Contra o nosso próprio bolor, digamos sim à antropofagia cotidiana, ao apetite e ao paladar.
Mastiguemos o lixo, com os dentes à mostra, e vamos reinventar o ouro. Sigamos pelos roteiros dos mistérios, e porque tudo já foi exaustivamente dito, sigamos rasgando a roupa que nos atropela a verdade no meio do Carnaval de banalidades. No caldo pós-moderno aguado, colocar as vísceras. Furemos o plástico bolha tecnológico e nos encontremos. Desnudos. Destruir almanaques, sabedoria ausente de sentido - façamos - a nós mesmos picotar, sem mea culpa. Transformemos o Tabu em Totem porque a alegria é a prova dos nove.
Deixemo-nos devorar. Devoremos.
“Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres”.
Oswald de Andarde - Manifesto Pau Brasil (1924)
4 comentários:
uau!!!...bravo...beijos
Hummmm... mas que delícia!! beijos!
Uau mesmo.
Maravilha...
Noossa amei...texto maravilhoso. Um protesto,uma bandeira que precisa ser hasteada. beijos
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