
Eufforria Extremillis
Sentia a vida parada. Sentia-se cansada. Não um cansaço corporal, era um peso, uma náusea que lhe estragava o dia. Devia ser efeito colateral, tentava racionalizar e tomar chás de modo a abrandar os sintomas da abstinência.
Foram ordens médicas. Depois de muitos exames viera o resultado. Era Euforia. Doença genética, de difícil tratamento, quando o cérebro não consegue fazer adequadamente as sinapses.
Considerada rara nos tempos modernos, porém comum nas sociedades primitivas - em geral aparece associada às manifestações ritualísticas como o Carnaval e à uma música lasciva chamada samba. Em casos obsessivos e terminais, a moléstia, liga-se ao gosto inabalável por esse tal de Rock and roll. Conta-se que um Eufórico em estágio grave resolveu misturar todos os ritmos, e a coisa destrambelhou. É a Eufforria Extremilis, quadro de prazer excessivo. Por este tempo havia o risco de epidemia porque os indivíduos mais propensos possuíam o péssimo hábito de se reunir em lugares de grande foco da doença - os bares, botecos e similares. Ambientes de ar rarefeito, anárquicos, era nos butequins se propagava a tal música, que unida às misturas etílicas nada confiáveis, provocava uma camaradagem calorosa, marginal, e por demais democrática, para a manutenção do “caretaestatus quo”. O resultado eram as sensações imprevisíveis e uma alegria perigosa. Ali, onde menos se esperava, naquele lugar sem nenhuma beleza a euforia comia solta. Com dialetos e gestos próprios, iguarias e códigos estabelecidos, as tribos se aglomeravam até o amanhecer. Era dali, das profundezas do prazer, que também nasciam idéias estranhas. Novos arranjos. Mudanças.
De modo que, para o bem das futuras gerações, decidiram erradicar as tais aglomerações pouco educativas. Era preciso fazê-los esquecer.
Euforia. Enormes ondas de prazer, respiração alterada, alvoroço sem precedentes, paixão. Manifestação que ao se tornar crônica, leva a uma incontrolável liberdade pondo em risco a saúde mental do paciente. É uma felicidade rústica, energia capaz de mover montanhas e aumentar a taxa de tolerância para com os outros seres humanos de comportamento também duvidoso. Pois bem, pensaram eles, sem nenhuma euforia, a quem este descontrole poderia beneficiar? Puseram-se a baní-la com teorias complexas sobre o nada, decididos a estabilizar as diferenças com doses diárias de "pílulas coloridas" que faziam a todos respirar igual, responder em frases feitas, de forma automática e no padrão. Assim, passaram a acreditar que a euforia é a manifestação psíquica de uma tristeza disfarçada em frágil alegria. Ciência e costumes.
O doutor recomendara que ela fosse forte, se controlasse, era preciso evitar a crise, conter impulsos para não se tornar uma paria – sorridente, feliz, crédula. Era preciso razão e bom senso, apenas uma questão de comportamento e risco, constatou o médico.
Ele preocupou-se. Ela apresentava todos os sintomas.
Gargalhadas e muitos pensamentos? Estágio avançado da doença.
Olhos brilhantes, sintoma claro, desejo inominável pela vida, visões sensoriais, empatia, estados de contemplação do outro e de si, pura euforia.
E ele achava bom. E ele também queria.
Contaminar-se. Quis.
2 comentários:
MARAVILHOSO, Cris!!! Arrasou muito!
Huuuuuuuuuum...quem é esse doutor?
Muito bom!!!!!!!!!!!!!!bjs
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