Grande, a miniatura.

Hoje, lembrei de Nizeth, amiga de infância e colégio. E posso garantir que foram lembranças sorridentes. Nizeth, além de criança agitada, travessa, alegre, inteligente era também, uma EEDMDAPB - Elaboradora Exímia Das Mais Diversas Artes Em Promover Bagunças.
Onde encontrava uma brecha, lá estava ela arquitetando o plano A, e calculando a possibilidade de falhas pelo percurso trazia na manga o plano B e o C. Uma estrategista nata.

Os olhos verdes claros sobressaiam diante da pele alva e seu cabelo loiro, até os ombros, permanecia sempre desgrenhado. E ela gostava de ser assim, descabelada e feliz. Nosso colégio, uma manancial de regras a cumprir. A pior de todas: o uniforme. Meia três quartos branca, sapato Vulcabrás ou bailarina, saia cinza pregueada, camisa meia manga - e a quadriculada gravatinha, nas cores preta cinza e vermelha - nossa garantia de não sermos barradas no portão.
E lá vinha Nizeth, toda impecável. Lá vinha Nizeth, compenetrada, engomada, lá vinha ela, com ares de princesa. Mas ao ultrapassar o portão, depois de contados dez passos, a me olhar de soslaio, arrancava do pescoço em um gesto debochado e orgulhoso, a forca. Era como ela se referia a gravatinha colorida que nos apertava o pescoço e nos fazia suar nos dias quentes de verão. Nizeth era ímpar. Agora, dois seres não menos marcantes entrarão nesta história. A mãe de Nizeth e seu cachorro. Grandes influências.

Chamava-se Zenith, a mãe de Nizeth. Esguia, pele branca, estatura avantajada - incomum nas mulheres - largas e bem demarcadas sobrancelhas pintadas de marrom, portava sobre o rosto seis graus de um vidro muito grosso que promovia em seus olhos um excessivo aumento. Muito embora seu aspecto avantajado, era comedida no vestir, muito Dior e cores clássicas, o que contrastava com a tintura ouro de seus cabelos que reluziam pelo pátio do colégio.
Eu ficava a imaginar quantos muitos frascos de laquê eram gastos para segurar o penteado - obra de arquitetura faraônica - aquela pirâmide de fios. A vasta cabeleira, redonda e alta a fazia ainda mais longelínea. Um verdadeiro capacete vestia a cabeça daquela mulher sem que houvesse no mundo vendaval que o derrubasse. E isso me impressionava muito. O fato é que não conseguia falar com Dona Zenith olhando-a nos olhos, pois me detinha a mirar seus cabelos a procura de algum fio fora do lugar.

Minha amiga Nizeth se mostrava cada vez mais EEDMDAPB. Por sua vez, a mãe ao perceber inútil a etiqueta de Sorbonne para educar a filha, partiu pra ignorância. Vieram os castigos mas como não surtiram efeito algum adotou outra tática de adestramento. As recompensas! Nizeth, com sua visão estratégica, logo inverteu o jogo. Cobrava da mãe as recompensas em troca de modos delicados: - eu quero um dobermann mamãe! E jurou de pés juntos: - um mês sem arrancar a gravata na escola!!! Nizeth e um Dobermann? Loucura fora de cogitação! A menina então, atriz de uma Ópera bizarra, despencou a chorar copiosamente. Jogava-se aos pés da mãe, suplicante e aos gritos, pelo cachorro. Devo dizer que cheguei a ficar com pena! Mas brilhante como era não se abateu, revoltou-se! E com resultado! Dona Zenith fora chamada ao colégio três vezes naquela mesma semana, justo quando a menina completaria sete anos.
Veio a surpresa. Numa tarde de domingo, na casa de Nizeth, esperávamos ansiosas pelo cachorro quente delicioso, que era elegantemente servido enquanto assistíamos à TV. Surge Dona Zenith, com uma das mãos escondidas nas costas e diz: - Aqui está filha adorada o que você mais queria. E mostrou-nos “aquilo” a quem doravante chamaríamos de cão. Era um pinscher miniatura.
A mãe colocou o animalzinho esquálido no colo de Nizeth que, com um sorriso amarelo, pronunciava entre dentes:
- Mas você acha, que eu acho, que isso é um cachorro mãezinha?
O minúsculo cão cabia em nossas pequeninas mãos. A pelagem era curta, dura, e bem assentada. A pele retesada e aderente, enaltecia a modelagem seca, seu aspecto refinado. A cor variava entre preto quase azul e marrom escuro, com marcação castanha, uma em cada bochecha e acima de cada olho. Duas marcas no ante-peito, pernas e patas, na face interna das coxas e sob a cauda. Enroscou-se no colo de Nizeth, aninhou-se.
- Podem chamá-lo de Grande informou sorridente Dona Nizeth, - uma “expert em dar nomes aos bois”. Estávamos perdidamente apaixonadas por aquela miniatura de animal que na verdade era uma tentativa de nos ludibriar.

Ora, já ouvi dizer que o dobermann é um pinscher gigante – ou melhor, pinscher é um dobermann anão, isso a gente viu de cara. Mas contávamos que talvez pudesse trazer no seu DNA as características do dobermann, cão apurado por Ludwig Von Dobermann, na Alemanha, em uma pacata região da cidade de Apolda, famosa por ser também a cidade natal de Lutero. Esse tal Von Dobermann, cobrador de impostos necessitava de um cão de guarda para protegê-lo de ladrões em suas andanças com muito dinheiro. Precisava de um cão que fosse rápido, ágil, inteligente, com uma poderosa mordida, que não temesse nada e fosse capaz de arriscar a própria vida se necessário. Legalmente habilitado a apanhar todos os cães perdidos, ele criou animais do seu plantel, escolhendo aqueles que possuíam as características do "cão ideal" que tanto procurava e criou assim os chamados "cães carniceiros". Apesar da literatura não eleger o Dobermann como o mais bravo, há indícios e comprovações científicas de que em época de calor eles são, sim, os cães mais perigosos por serem cães de laboratório. O cruzamento genético trouxe um probleminha quanto ao tamanho da caixa craniana em relação à massa encefálica. Exposto ao clima quente, o cérebro - do tamanho de sua cabeça em condições normais - sofre com a dilatação e a falta de espaço, causando muita cefaléia, o que pode deixá-lo totalmente louco, agressivo até mesmo com os donos.

Acabo de lembrar, a mãe de Nizeth havia entrado na sala novamente trazendo um manual sobre a raça pinscher. Imediatamente puxamos o livro de suas mãos e nos deparamos com a seguinte frase: Pinscher é uma palavra alemã que significa "mordedor, trapaceiro". Dona Zenith tranqüilizou-nos, dizendo que a senhora, dona do canil, assegurou se tratar de um cão dócil, amigo, companheiro. Falou a respeito dos antecessores e declarou a ela que na hora da escolha era importante conhecer, e saber mais, sobre o temperamento dos pais dos cães, afinal, pais equilibrados são indispensáveis para se obter um filhote de bom temperamento. Pois é, foi assim que dona Zenith despediu-se de nós três, com “ar de aeromoça”, dando instruções aos passageiros a respeito dos equipamentos de segurança: - Tudo depende da educação que será dada. Lembrem-se, meninas, que a educação interfere não só nos animais como nas pessoas.

Naquele instante, num rodopio malabarístico, Grande jogou-se do colo de Nizeth ao chão, esticou-se, levantou a cabeça para o alto começou a uivar para, logo em seguida latir freneticamente. E assim Grande, ao longo de seis meses, despontou como um aventureiro que sem temer cachorro grande, encarava até caminhão. Tive que concordar com Dona Zenith: era preciso cautela e pulso firme a despeito do tamanho do pequeno mamífero latidor.

O pulso firme logo se mostrou necessário. Se havia uma coisa que Grande não gostava era de ser contrariado. Certa vez, Dona Zenith, para receber em sua casa o Cônsul da Itália, transformou seu apartamento da Avenida Viera Souto numa réplica do Castelo de Versalhes e Grande - hiperativo e histriônico - foi terminantemente proibido de entrar no salão pois, certamente, atormentaria os convidados. Contra nossa vontade, e a dele também, ficou preso no quartinho dos fundos.

Era uma noite quente de verão, muito quente. A recepção transcorria dentro do cerimonial de gala dos salões refrigerados. Enquanto aproveitávamos ares suíços, imaginava o Grande preso em altas temperaturas com seu pequeno cérebro a dilatar no quartinho escaldante.

Já era bem tarde e o jantar teria sido um sucesso se, embaixo da cadeira da Consulesa, não tivéssemos avistado Grande a deleitar-se com o que nos parecia uma espécie de algodão, restos de papel, ou uma pequena toalha colorida salpicada de vermelho. Estávamos confusas, Nizeth e eu, pois a estas horas abrir os olhos era tarefa difícil. Sonolentas, nos aproximamos de Grande e identificamos o objeto com o qual ele se satisfazia. Era um absorvente com abas todo ensangüentado que com tamanha fúria ele destroçava fazendo voar lascas pelo tapete persa. E tudo isso se deu no centro da pequena roda que se fizera na sala de estar onde, naquele exato momento, todos elogiavam a bela recepção degustando um licor raro. Envergonhada, Dona Zenith colocava suas mãos sobre o volumoso penteado enquanto Nizeth, em movimentos lentos, exausta, arrancava os três laços de fita dos cabelos e despenteada, me puxava pelo braço. Olhou para sua mãe e com uma gostosa risada, disse baixinho: - Euforia mamãe!
Percebendo ali, que sua mãe espumava e, definitivamente, não a entendia, esforçou-se em traduzir o conselho: - Euforiaaaaaa! Eu se fosse você, ria!
E saímos Nizeth, eu e Grande, ainda com pedaçinhos do absorvente grudados no canto da boca, deixando Dona Zenith, mais uma vez, à mercê de sua própria invenção!
Naquela noite, mesmo sonolenta, finalmente pude ver a cabeleira de Dona Zenith desmantelar-se.

Um comentário:

cris braga disse...

Maravilha!!!!Queria ter sido amiga de Nizeth. Muito bom!!!bjs