
EUFORIA E RIA, E RIA...
Ela ria. Ria das calças largas da nova estagiária do escritório; do aaaaaa...bacaxi da praia; das sandices da mãe que acreditava estar diante da morte a cada duas horas; de câmeras filmadoras que travavam no rewind; das tardes com a melhor amiga que tinha como sonho abrir uma fábrica de papéis; dos filmes da sessão da tarde; dos concursos de miss; de seu espelho quebrado. Ria-se toda, e toda vida, de doces devaneios; de livros de auto-ajuda; de programas de auditório; da gagueira do taxista; da aparência voluptuosa escondida nos nove anos da irmã caçula; dos carros de auto-escola em ziguezague no trânsito; dos entregadores de pizza em dia de chuva. Ela só ria. Não era diferente com as piadas dos amigos; as noites sempre iguais; as mesas de bar cultivadas por gargalhadas descompromissadas; o tédio; o finalmente novo; a surpresa. Não deixou de rir nem dos primeiros olhares; do slow-motion em que se transformava o mundo naqueles instantes; dos cafés a dois – ou a milhares, se notassem os livros ao redor; das contas que assistiam inquietas às brigas por quem ia pagar; da vontade de estar junto; dos travesseiros ensopados de sonhos e já cansados da mesma pessoa que ainda não conheciam ao vivo...
Ele não ria. Não ria do pastel de feira que comia toda sexta; da sinfonia de passarinhos que o acordava às seis da manhã; das colunas sociais; dos comerciais de creme dental; do ônibus que passava direto; de livros de cabeceira e gavetas empoeiradas; da solidão que o chicoteava a cada madrugada insone e dos dias seguintes nublados; do iTunes que não reconhecia o iPod; da impessoalidade com que recebia seus clientes no trabalho. Não ria tanto, quase nunca, nem do louco pedinte na Lapa, e do pirado senhor do Leblon; de casas que desabavam e afetos que não eram construídos; das boates sempre cheias e sempre vazias – que nem alguns amores; do deslizar da dança de quem não conhecia; da reunião para assistir o futebol; do churrasco com a galera; de toda a gente homogênea; da primeira fervura no estômago; da pequena partícula da massa que se tornava, aos poucos, uma só. Ele não era mesmo de sorrisos. Tampouco por conta do primeiro “alô” trêmulo; da euforia que tomava cada centímetro do seu corpo e quase impulsionava as maçãs do rosto para os lados; da falta de preparo para lidar com situação tão específica; do frio na barriga ao deitar; da certeza mais que absoluta de que estava diante da melhor pessoa do mundo, e do desejo secreto de mergulhar nessa ilusão para sempre.
Então ele riu.
E um outro Ele, que assistia a tudo de fora, não apenas falava. Ele gritava com convicção, e todo bobo de orgulho: “eu fui um grande laço”. Diz-se que acabou no mês seguinte, mas era bobagem chorar...
4 comentários:
Já li várias vezes e sempre com novos olhos...adorando!!!
quanto ao curta...F...me emocionei demais. Vc não imagina o quanto.Beijo!!!
Amei esse v�deo...vi v�rias vezes!!! Adoro sempre! Esse v�deo � tudo!Texto maravilhoso tb!beijos
Mariana,
Me emocionei ao ver o v�deo, que descoberta linda...nossaa me emocionei com o tamanho da verdade de sua mensagem...seu texto tb mto lindo !! Um prazer...
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