Todos os sabores da vida...

A sorveteria Dois Irmãos era a atração mais famosa da pequena cidade de Monte Alegre, onde a mãe de Bia nascera e crescera. Com mais de 206 sabores, que iam dos mais simples como chocolate até os mais inusitados, como feijão doce e rapadura, passando por uma variedade de outros sabores, muitos dos quais Bia nunca nem ouvira falar, a sorveteria permeara a vida de muitos moradores da pacata cidade e fazia parte constante das histórias da mãe na menina.

Ela não se cansava de contar à filha todas as histórias de sua alegre infância e de como cada sabor fazia com que uma janela de seu passado de abrisse e a fizesse lembrar de alguns momentos e sensações dos quase vinte anos em que vivera lá. “O de baunilha com menta...” lembrava a mãe com água na boca, “me faz lembrar do meu primeiro beijo e o de mariola, da primeira vez que eu me apaixonei de verdade...” dizia a mãe saboreando cada lembrança, enquanto era cortada volta e meia por grunhidos de Bia, que explicitavam sua impaciência com as já tão conhecidas histórias da mãe. Havia também os que lembrassem casamentos e carnavais e também o de tomate com licor, que lembrava a morte da bisavó e já não parecia tão saboroso. (para Bia a estranha combinação nunca pareceu ser saborosa, de qualquer forma.).

A viagem para Monte Alegre, onde mãe e filha passariam as festas de fim de ano, para infelicidade de Bia, que preferia passar a virada do ano se espremendo que nem atum em lata na praia de Copacabana, junto com os amigos, (Atum, aliás, era um dos sabores mais bizarros oferecidos pela Dois Irmãos, sempre com a opção de calda de alcaparras) havia sido cansativa, já que ambas precisaram se submeter a uma longa jornada de quase dezesseis horas no ônibus, depois que a mãe de Bia deu perda total no carro, três dias antes da viagem. Entre relatos da mãe e sonecas, Bia também se arriscou umas duas vezes no banheiro do ônibus que, como todos sabem, é sempre uma aventura, com o ônibus chacoalhando sem parar, a sensação constante de se estar dentro de um liquidificador, e a tentativa, quase sempre frustrada, de fazer xixi no lugar certo, além da porta que sempre emperra, nos fazendo achar que vamos morrer sufocados e esquecidos dentro de uma patética cabine de ônibus.

No último natal que passaram na cidade da mãe, Bia tinha apenas poucos meses e, depois de treze anos, as duas retornavam com uma missão importante: fazer companhia ao avô de Bia, que entrou em depressão logo depois da morte da avó. O avô, com quem Bia tinha pouca intimidade, mas que colecionava fotos da única neta por toda a casa, mostrando enorme devoção, não escondeu a alegria e a tristeza de ver as duas, agora com “o time desfalcado”. Logo quis levar a menina ao seu lugar preferido e que provavelmente era o preferido de Bia também, por ser o único do qual Bia ouvira falar: a sorveteria.

Bia foi logo entrando entusiasmada, como se estivesse conhecendo o monumento mais antigo e conhecido do mundo e logo se encantou com a quantidade de sabores. Alguns que davam água na boca, outros nem tanto... Antes que pudesse escolher o que queria, Bia notou que o avô estava calado, numa espécie de transe, olhando os sorvetes. Ficaram os dois calados um tempo. Ela, sem saber o que dizer, ele, sem saber o que escolher.

“Você sabe quando eu descobri que estava velho, minha filha¿” Falou o avó, saindo do transe e dando um susto na menina, que a essa altura, já tinha entrado em transe também. “Não.” Respondeu tímida. “Quando eu percebi que não tinha mais nenhum sabor de sorvete pra eu experimentar.” Bia, que a principio não sabia o que fazer com a gargalhada que crescia dentro dela, acabou soltando o riso, mesmo com receio do que o avô ia pensar. O avô, para sua surpresa, riu pela primeira vez. “Então porque você não come todos de novo¿ Talvez eles tenham mudado de gosto com o tempo.” Falou a menina. “É, Talvez eu tenha mudado com o tempo também...” falou o avô pensativo. E, resolvendo que provaria tudo de novo, de um jeito diferente, o avô passou a tarde rindo e comendo com Bia na sorveteria.

“Talvez o natal em Monte Alegre tão tenha sido uma má idéia...” Pensou Bia mais tarde.

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Queridos, gostaria de desejar um feliz natal e ano novo para todos! Ah! E não se esqueçam de provar todos os sabores que a vida tem pra nos oferecer... rsrsrsrs

Ps: meu teclado tá meio errado, então saiu esse ponto de interrogação de cabeça pra baixo...

4 comentários:

Cris disse...

vai ver o teclado tá certo, de acordo com o texto,novos sabores, novas formas...bjs!!!

cris braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cris braga disse...

Vai ver seu teclado está experimentando novas formas...AMEI O TEXTO...concordo que sempre devemos provar todos os sabores q a vida nos oferece...

Anônimo disse...

Perfeito!
Vamos provar todos os sabores e quando acabar, provar td denovo!