Gotas graúdas de chuva vieram estilhaçar aquela sonolência gostosa, daquelas que se alojam entre o cérebro e o breu ante as pálpebras cerradas – bem nos três segundos que confundem sonho e realidade antes do despertar definitivo. Ela havia exagerado na bebida na noite anterior, o que prolongava os segundos em, no mínimo, sessenta – tempo que levava até descobrir que as agulhadas na cabeça não passavam de uma madrugada dengosa que ansiava ser lembrada.

Era manhã de segunda, e manhãs de segunda geralmente vêm acompanhadas de “eu estava merecendo”. Mas, pensando bem, o exato momento em que a gente merece alguma coisa é quando a gente quer. Simples assim. A “segunda-feira” é só perfume. Chafurdada numa ressaca que ela certamente não merecia, pegou mais cinco segundos emprestado – os quais gastou torcendo para que o tempo estivesse a seu favor – e abriu os olhos. Já passava das nove.

Em quinze minutos, Joana estava num ônibus cheio – sem maquiagem, de barriga vazia e com as barras da calça encharcadas. Por sorte, conseguiu um lugar para sentar. Era seu quarto dia no emprego novo e chegar atrasada pegaria realmente mal. Lembrando da janela que deixara aberta em casa, notou um par de olhos que não se movia em meio ao tédio dos passageiros que estavam de pé. O olhar era de uma senhora que já devia estar nos seus 75, aparência bondosa, envolta no maior clichê da imagem de “vovó”. De início, sentiu compaixão. Ela adorava velhinhos. Esboçou um sorriso que logo foi desfeito, ao perceber que nenhuma membrana do rosto da senhora se moveria em resposta.

A velha dos olhos estava em pé, eles – os olhos – eram azuis e se faziam vermelhos na perspectiva de quem estava posicionado abaixo. Talvez estivessem verdadeiramente da cor do mar, se não fossem, naquele instante, só de Joana, que desviou o olhar, fingiu interesse na formiga que passeava na janela e depois passou os olhos correndo pelos da velha umas três vezes – só pra conferir se eles ainda estavam lá. Estavam. Só dela. Chegou até a olhar pra trás para ver se era com ela mesmo, embora já soubesse. Sempre sabia quando as coisas eram com ela. O que essa senhora estava esperando com tal olhar duro e ininterrupto? Aquilo estava começando a ficar chato.

A expressão do rosto que acompanhava os olhos não variava: parecia morta. Joana não sabia decifrar se era censura, pena – Meu Deus, esqueci de pentear os cabelos, na pressa? –, asco, ou mesmo afeto. Passou os olhos mais uma vez na figura alta de vida já muito vivida, enrugada – Recalque? Inveja? Saudade?. Tentou lembrar se a conhecia de algum lugar – uma parenta distante, uma secretária, uma professora, uma médica. Nada: ela continuava sendo uma completa estranha. Mesmo após longos cinco minutos em que o olhar vermelho dilacerava o seu castanho até a última víscera do corpo, as quatro íris continuavam sem identificação alguma. Joana experimentou encarar de volta. Não conseguia. Sempre perdia nas “brincadeiras de sério”, quando criança. Uma angústia mais majestosa que a chuva que caía do lado de fora se apoderou de Joana, algo que quase chegava a sugerir raiva – afinal, que direito essa dona acha que tem de importunar os outros sem dizer o motivo? –, mas ela não sabia muito como era esse negócio de sentir raiva das pessoas. Ela simplesmente não entendia. Nunca ninguém havia ensinado a essa dona que é indelicado encarar? Esperou pelo momento em que a velha diria alguma coisa, faria alguma pergunta, uma revelação, pediria um conselho. Ou o momento em que ela espirraria, tossiria, tropeçaria – vacilaria de alguma forma. Nada. Depois de algumas paradas, a velha saltou.

Da mesma forma que entrou no ônibus e iniciou contato visual, saiu, interrompendo aquilo tão sutilmente que Joana quase não percebeu. E não olhou pela janela pra saber o destino atual daqueles olhos vermelhos. Que nem essas muitas coisas que acontecem e a gente passa segundos, anos, ou uma vida inteira sem entender. Que nem essas coisas que a gente não sabe por que vieram, nem por que foram. Que nem alguns bancos de praça, alguns amanheceres, alguns tipos de olhares. Como fins de tarde na praia, como filmes e ar condicionado, como lençóis amarrotados. É. Talvez a velhinha do ônibus fosse isso, mesmo: dessas coisas que entram, passam de relance e, num instante, escapam das nossas vidas sem que a gente nunca entenda o propósito daquilo.

Mas, e se não? E se um lençol amarrotado na noite anterior servisse para um terceiro olhar hoje, no ônibus? Um olhar de apoio, para o qual ela pudesse direcionar o seu próprio e fugir daquele tão inconveniente. Se um lençol amarrotado lhe rendesse companhia na manhã chuvosa, ou trocasse a ressaca por conversas madrugada adentro, em casa. Ela entenderia. Ela entenderia, ali, no ônibus, pra que servia o olhar da senhora. Ele serviria para fazer Joana sentir-se protegida. Ou, quem sabe, para trocar o banco suado de antigos estranhos por um de carona, num carro – suado de outros amores. A gente nunca vai saber.

4 comentários:

Cris disse...

muito bacana, mari...!!!

Cris disse...

hahaha...não era revelação e sim revolução, mas valeu assim mesmo, teu texto tá fluindo bem!!!

Mariana Bradford disse...

HAHAHAHAHAH
Não acredito!! Gente, desculpa! Sou retardada.

peutome disse...

belíssimo texto mesmo assim