
Fim de ano do escritório...
“Fim de ano, muita festa, sempre um motivo pra comemorar...” Foi mais ou menos assim que começou o discurso do chefe de Tonico no último dia de trabalho antes do recesso de Natal. “Que tal uma confraternização? Um choppinho, um Happy Hour?” O chefe de Tonico era um cara assim engraçadinho. Engraçadinho até demais, daqueles que a piada não tem a menor graça. Fazia uns dois anos que ele contava a mesma piada toda vez que Tonico aparecia na sala para entregar os relatórios “Pergunta se eu sou arroz.” “Você é arroz?” “Sou, agora pergunta se eu sou feijão.” “Você é feijão?” “Não, eu sou o fodão!” O que, obviamente, não é uma piada. Tonico tentava rir, mas o máximo que conseguia fazer era esticar as extremidades dos lábios. “Sacou o trocadilho?”. Obviamente o chefe também não sabia o que era um trocadilho.
Naquele fim de ano os funcionários da “Ramón Toledo e Associados”, escritório no qual Tonico trabalhava há dois anos como estagiário, resolveram deixar de lado o tradicional amigo oculto, por conta de um boato espalhado pela mulher da contabilidade, dizendo que o cara da administração dava sempre presentes usados e que no ano anterior havia dado a ela uns sutiãs usados de sua mulher. Não querendo correr o risco de serem sorteados pelo “falsário”, resolveram que mais econômico e amigável era confraternizar com uma cerveja gelada e uma boa conversa fiada.
Combinado o dia, tudo certo. O chefe, que organizara tudo, fez questão de confirmar com todos, afirmando que a conta era por conta dele. Tonico foi acompanhado de Estela, outra estagiária. Ele nunca tinha gostado muito dessas confraternizações e raramente ia, mas afinal o que custava, justo naquele fim de ano, quando faltava apenas um semestre para ele terminar a faculdade, fazer “aquela” social com o chefe?
Houve uma discussão no carro, quando Tonico cismou que o bar era na rua X e Estela tinha certeza que era na rua Y e logo eles resolveram checar nos dois lugares, chegando à conclusão de que Estela estava certa, o que não necessariamente foi uma coisa boa.
“Cadê eles?” “Ali!” “Onde?” “Ai meu Deus, passa reto, passa reto, não veio quase ninguém, cadê todo mundo?” Enquanto Estela tentava se esconder atrás de uma pilastra, Tonico foi imediatamente reconhecido pela secretária do chefe, que tinha aproximadamente a idade de sua falecida bisavó. Envergonhados, os dois foram até a mesa falar com os cinco ilustríssimos funcionários que tinham comparecido: a mulher do cafezinho, a secretária, outro estagiário, um cara que Tonico nunca tinha visto e uma mulher da qual ele não lembrava o nome.
“Pois é, o povo desmarcou, teve gente que errou o lugar, deu de cara na porta...” “E o chefe?” “Não pode vir, teve um compromisso”. Estela e Tonico queriam simplesmente chegar para aquelas pessoas e dizer educadamente “Pois é, o papo ta bom mas... eu não te conheço, eu também não te conheço e, bem, acho que... temos que ir. A gente só veio dar um oi mesmo etc. e tal.” Afinal de contas, que espécie de organizador fura seu próprio evento? Constrangidos pela ausência de (quase) todos, Tonico e Estela sentaram-se e resolveram encarar uma cerveja. Uma. Latinha. Que eles dividiram pra acabar mais rápido. Conversaram uma coisa ou outra com o pessoal, falaram do escritório, do chefe, das festas de fim de ano, do caso que a mulher da contabilidade tinha com o cara da administração (o mesmo que deu sutiãs usados para ela), pagaram a conta e... “Bem gente, o papo tava ótimo, mas já ta na nossa hora...” Feliz Natal pra lá, Feliz Natal pra cá, tudo ótimo, tudo lindo. Ufa!
“Quem era mesmo aquela loirinha?” perguntou Tonico à Estela. “A Sandrinha, do almoxarifado”.
“Ah, tá...”
3 comentários:
como sempre prosa maravilhosa, esse escritorio é o mesmo da torta??? rssss bom demais!!!
Bom demais!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
supimpa!!! supimpa? devo ter a idade da secretária. você, desde pequena, sabe como contar um bom "causo". bjos
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