
1967 era o ano. O dia, 31 de dezembro. 11h30 da noite. Passados os números, pode-se dizer que Londres estava pequena para tantos sorrisos. A multidão eufórica reunida em volta do Big Ben contrastava com as águas do rio Tamisa, que tranquilamente desdenhava do ano prestes a nascer.
Era um rapaz que, nos seus 27 anos, tinha em si todos os desejos que hoje não teria nem sob a ilusão de um Show de Truman. Era bobo, romântico, babão que só ele. Pelas pessoas que gostava fazia de tudo, e descobrir que elas nem sempre fariam o mesmo por ele o deixava mal. Era cheio de sonhos e em busca deles também fazia coisas das mais loucas – gastava o dinheiro que não tinha e vivia surpreendendo todo mundo. Sua auto-estima ia ao fundo do poço quando algo mostrava que o mundo podia não ser cor-de-rosa como ele gostaria que fosse. Tinha gente que, veja só, achava que ele era gay. Mas de gay, gay mesmo, não tinha nada. Era só um menino crescido com alma de criança. Só alguém com alma de mulher. E talvez por gostar tanto delas, das mulheres, se perdia na pureza, na ingenuidade e no folclore do mundo.
E estava ali no reveillon ao lado dela, acreditando ser real aquele mundo de fantasia. A Rainha nem sabia, mas em sua capital estava o casal de turistas certamente mais apaixonado de que se teve notícia. Exalavam tanta melação que chegava a dar nojo. O pai dele, grande advogado brasileiro, havia embarcado o filho com a namorada para passar as férias na Europa. Namorada de quatro meses, mas já suficiente para fazê-lo deitar ao travesseiro com mil planos em mente e achar um buquê de rosas muito pequeno para ela. No momento em que eclodiram os fogos e a sonoridade das badaladas do big ben se confundiu com berros de otimismo, ela sentiu as mãos do namorado levantarem seu rosto em direção a um olhar firme.
– Juliana, eu te amo. É maior que a London Eye, que o Palácio de Westminster inteirinho... Quero tropeçar pelos dias da minha vida com você. Quero te dar as chaves da minha casa. Quero desligar o ar-condicionado toda noite quando você já estiver enrolada nos lençóis. Quero viver de mãos atadas, tentando conquistar as coisas, fazer amigos, zelar pelas pessoas junto com você. Você sabe de tudo isso. Quero estar exatamente onde estou agora, e quem sabe pra sempre.
E, nisso, os dois choraram. Mas as lágrimas dele só saíram depois de ter a certeza de que as dela eram de felicidade.
Hoje os fogos de artifício estouram fagulhas de mesmice, a champagne desce amarga e os sorrisos até que são verdadeiros; mas no fundo, no fundo mesmo, não passam de um dar de ombros. O apartamento na Avenida Atlântica abriga o reveillon do pessoal da empresa: é de um dos colegas de trabalho, claro – ele mesmo mora na Praça do Lido. Fazia tempo que deixara de pensar em Juliana à meia-noite. O romance teve fim pouco depois de retornarem ao Brasil. Ela era assim, mesmo, inconstante. E ele, tardiamente, parou de acreditar em contos de fada. Pessoas mudam e sentimentos se extinguem. Acontece. Hoje é solteiro, inteligente, risonho, ansioso, generoso e indiferente. Não tem namorada nem seminamoradas, passa sozinho a maiorias das sextas à noite, o telefone não toca e quando se reúne com amigos conta o que acontece. E o que acontece é solidão.
Há tempos a passagem do dezembro para o janeiro se transformara em obrigação social e, com sorte, arapuca para beijar alguém. Em renovação ele deixara de acreditar fazia muito, muito tempo... Feliz 2008.
4 comentários:
é...!!! dá prá pensar...
Eu conheço várias histórias assim. As fagulhas da mesmice permeia, faz muito tempo, a vida das pessoas.
Lindona, adoro seu jeito de escrever.Feliz 2008!!!!
"COISAS DO AZUL 2008"
gente, isso é lixo do bom... ugs...
pense pelo lado positivo, já que podia ser o lixo do lixo
sua pelassaca
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