Olívia fumava um cigarro mentolado, enquanto seus pensamentos voavam pelo quarto empestado de fumaça. Lembranças. Muitas lembranças. Poucas lembranças. Da festa do dia anterior ela lembrava de alguns cheiros. Ela tinha essa coisa com cheiros. Lembrava do cheiro de cerveja na roupa dele e de como ela o beijou como se aquilo fosse a maior loucura que fizera na vida. Talvez tivesse sido. Seu nome naquela noite foi Ana. Não tinha mais aquele jeito doce. Não tinha mais medo. Não tinha nem mais aquele cabelo comprido. E seu estômago passou a noite dando voltas incontroláveis. O nome dele era Rodrigo. E ela acreditou. Disseram mentiras a noite toda, como se aquilo fosse uma simples brincadeira de faz de conta. Ela disse tudo que gostaria que fosse verdade. Fez tudo que Olívia jamais pensou em fazer.

Deu a última tragada no cigarro, deitada naquela cama de motel, ouvindo o barulho do chuveiro ligado. Não quis esperar. Que as mentiras continuassem soando como verdades. Que Olívia continuasse sendo Ana. Pelo menos para Rodrigo.

Foi embora, levando de lembrança uma daquelas caixas de fósforo de motel.

****

Era o décima copo d’água que Marcelo tomava, enquanto seu irmão, Felipe, tentava o convencer de que a melhor solução era o tal do chá de boldo. Depois de duas aspirinas e do tradicional Engov, não havia nada que fizesse parar a dor de cabeça de Marcelo.

Marcelo, que na festa do dia anterior tinha sido Marcelo mesmo, não sabia se a ressaca era por conta de toda a vodka ou por conta das três dançarinas russas (embora ele tenha certeza que uma delas era cearense) que amanheceram com ele no motel.

Da noite anterior não tinha muitas lembranças. Lembrava vagamente de ter tentado falar russo com a dançarina ruiva e de ter subido no balcão para fazer um streaptease.

Agora, seguindo os conselhos do irmão, resolveu tomar o chá de um gole só. Precisava melhorar até o fim do dia.

****

Adornada de magníficos lilases, a igreja preparava-se para receber a noiva. Contentes, ansiosos e ligeiramente invejosos, os convidados arrumavam-se nas cadeiras, ouvindo a música clássica e preparando-se para cair em prantos na hora do beijo.

Marcelo, ansioso em seu terno de linho, admirou placidamente a entrada cuidadosa de Olívia, em seu vestido branco. Quando o casal se juntou no altar e o padre deu início à cerimônia, ambos se olharam por um instante, cúmplices. Estavam prontos para o “sim.”

2 comentários:

Cris Chevriet disse...

gostei muito, como sempre!!!

cris braga disse...

Bom,muito bom!bjs