
Insônia
Marcelina não dormia. Os flocos que então serpeavam pela janela eram discretos, silenciosos: o maior chamariz para que o fizesse. No entanto, os mesmos que assomavam o sono urbano desta vez foram altivos - esgarçaram a fisionomia da garota de baixa imunidade, que permanecia insone envolta ao maior resfriado de que se lembrava nos últimos meses.
Para sua noite diurna, tinha ao lado a bonomia do menino adormecido. O talhe de seu rosto era perfeito e uniforme, tais as bochechas e o lábio tornavam irresistível a lisonja por parte de sua companheira. Marcelina beijava-lhe o rosto tão levemente que ele sequer chegava a sentir, por mais que na manhã seguinte dissesse o contrário.
Os flocos de neve descendo através da janela fizeram das horas ligeiras. Ao olhar para o relógio sobre a cômoda, surpreendeu-se com o tempo que estava sem se alimentar: fazia vinte e quatro horas completas em que não colocava algo na boca. Não sentia apetite. Receosa de que a ausência de comida lhe retardasse a recuperação, levantou-se e dispensou meia dúzia de pessoas que insistiam em enviar-lhe mensagens no computador, logo após dirigindo-se até a cozinha para o desjejum. Pegou uma banana. Era pequena, mas ela não era exigente.
Voltou ao quarto e escorregou em um dos quinhentos lenços de papel que havia usado, abarrotados no chão. O menino continuou a dormir; tinha sono pesado. Marcelina deitou ao seu lado e começou o processo de descasque da fruta.
A casca dividiu-se em três partes quase que iguais. Sentia poder ao fazer aquilo. Olhou para seu anjo de respiração curta ao lado e desejou que o que possuía em mãos fosse ele.
À primeira parte descascada reservaria os olhos da cara: os removeria sem dó, para que não fosse obrigado a enxergar um grupo de palhaços na televisão falando besteira num freak show qualquer. Ademais, os tiraria para que não fosse condenado a assistir as rugas se acentuando à face de seus filhos ainda não nascidos. Mas o faria, principalmente, para que não fosse idôneo de prestigiar as primeiras páginas dos jornais, dia após dia.
À segunda, implantaria como representantes as orelhas. Para que pudesse livrar-se do punhado de tiros de sinfonia adicionada a gemidos do sexo sujo de vizinhos, que ouvia ao menos durante três madrugadas ao desenrolar da semana, tais quais lhe tiravam o sono… Com sono de anjo não se brinca.
E finalmente à terceira parte retirada, equivaleria o estômago, para que não fosse suscetível á podridão. Era decretado: toda e qualquer gula por parte de seu instinto seria, a partir de então, saciada por elementos frutíferos, efêmeros de colheita eterna.
Marcelina queria vê-lo reduzido ao miolo. Reduzido em sentido distorcido, tal que sob o aspecto que moldaria, se pontaria como superior a todos. Era para que lhe fosse entregue a delícia de poder sentir as coisas mais simples - ele gostava muito de Manuel Bandeira.
5 comentários:
Eu adoro seus textos, sempre. Mas esse teve a melhor parte de todos.
"Pegou uma banana. Era pequena, mas ela não era exigente."
Fantástico.
e há mais de melhor aí, dentro do texto. abração!
Mariana !! Já sou sua fã,mesmo !!
Adorei seu texto de novo.
Viciei tb na 4a. feira...
BACANA MESMO! GOSTEI MUITO! BEIJO
Me lembro desse texto ;)
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