Psicose

6:34. Era o contorno que os pauzinhos luminosos do despertador formavam, e piscavam. Piscadelas de flerte, num jogo de atração para fora da cama. Ele se perguntava porque era tão difícil ceder à sedução, porque vencer a preguiça se fazia tão complicado, enquanto passava por cima de obstáculos decerto mais fortes... Então as lembranças da madrugada anterior lhe faiscaram à mente, e seus questionamentos foram calados. Não era de todo assustador, para quem faz o que ele havia feito.
O aparelho Nextel sobre o criado-mudo o lembrou da reunião marcada para as sete. Estava atrasado. Por fim deixou-se vencer, depositou primeiro os pés no chão, logo ergueu o tronco e encaminhou-se para o banheiro. Enxaguou o rosto. Observou a água na pia de cerâmica carregando consigo toda a imundice e sujeira que lhe foram designadas, a imundice da qual é melhor não se falar. Foi até a copa e preparou uma vitamina de banana. Não se contendo ao lembrar da noite anterior, dirigiu o olhar ao soalho defronte os sofás. Não foi possível conter o vômito, não teria sido nem para quem se habitua a fazer o que ele havia feito.
Escovou os dentes e pegou o carro. Era feriado, as avenidas estavam congestionadas e a impaciência das pessoas no trânsito atiçava a sua própria contra o chefe, que marcara a maldita reunião no dia de recesso, enquanto ele podia - e deveria - estar sobre o soalho defronte os sofás, alimentando o prazer que apenas quem faz o que ele fizera compreende.
Adentrou a sala de reunião com dezesseis minutos de atraso. Estavam em votação, para o que, ele não sabia. Caminhou de soslaio e tomou lugar na mesa. Observou de canto de olho o cara ao seu lado, decidiu que colocaria o mesmo nome que estivesse em seu papel. Distante como estava, em poucos instantes as letras que se formavam perderam a nitidez e tudo que via era borrões, além dos movimentos da caneta em um farfalhar surdo, que mantinha uma sincronia quase perfeita. Fez o que tinha de fazer com má vontade e desceu para a rua.
Discou para Carmen e, meio nauseado, pediu para que se encontrasse com ele no lugar de sempre. Chegou até Copacabana, se meteu numa das transversais da Barata Ribeiro e entrou no velho prédio onde tinham um apartamento alugado. Carmen ainda não estava lá. Serviu um copo de uísque com água e ficou saboreando na janela. A vizinhança estava calma, no entanto ele se sentia muito inquieto sendo cercado por pessoas em cima, embaixo e dos lados. Era efervescente o fremir dos mundos entrelaçados por cada janela, delineando experiências e sentimentos incapazes de se comunicar. Após alguns minutos, ela chegou. Estava alucinante: um vestido justo com estampa de flores pendia docemente de seus ombros, realçando o contorno de seu busto e deixando à mostra as longas pernas, terminando em unhas vermelhas escoradas num tamanco alto. Ele se aproximou e, de apenas um toque brusco, levantou o vestido até a cintura. Ela estava sem calcinha. Estocou por alguns segundos, o suficiente para escorrer o transtorno que reinava naquele dia. Desta vez, fizera pouco caso do deleite da amante, descarregando uma porção de seu delírio naquela válvula de escape em formato humano. Quando acabou, agarrou Carmen pela nuca até o sofá e, ainda sem encará-la, se limpou e foi embora.
Pesava dez quilos a menos e já esboçava um sorriso, embora continuasse a sustentar uma silhueta tácita. Voltou a pé para o trabalho, pegou o carro e dirigiu pra casa.
A verdade é que era ainda um iniciante e, como tal, não pôde conter o frio na barriga ao tocar a maçaneta do apartamento. Entrou e foi de cabeça baixa até a cozinha, onde serviu mais um copo de uísque diluído que antecedeu inúmeros outros. Somente quando já via o mundo em doses embaçadas ele teve valentia para voltar à sala e olhar para o soalho defronte os sofás. Ali jazia, já frio, o corpo de sua mulher, paralelo ao jogo de facas ensangüentadas que, até a última madrugada, tinham a serventia de perfurar exclusivamente carne bovina. Ele caminhou até a esposa inerte, lhe emplacou um beijo longo e um abraço, de companhia aos espasmos que lhe vinham à mente relembrando a atrocidade que havia cometido. Não chorou. Passou a noite limpando o vermelho do chão e se desfazendo do corpo. Só pela manhã retornou ao quarto, tomou um banho rápido e adormeceu.
Depois de romântico, estuprador, dançarino de salsa, cigano e escritor, assassino definitivamente não era o que iria satisfazê-lo. E a caça continuava...

13 comentários:

Anônimo disse...

Boa estréia e boa sorte, que o talento continue sendo reconhecido :*

Anônimo disse...

hey, esse texto ta bem legal... boa sorte Mari!!! que seus textos continuem bons como esse.

Anônimo disse...

Nossa, vcs são muito ruins

Anônimo disse...

Nossa, vocês são muito ruins.
( sinceridade de um leitor que não teve coragem de passar do segundo parágrafo)

Mariana Bradford disse...

Tá tranqüilo, comentários estão aí pra isso :) Sinta-se à vontade.

Anônimo disse...

Gostei do que fizera quando cigano. ;)
Texto legal Mari! Garanti minha cia, agora posso mimi. =*

Anônimo disse...

Oi Mariana,
lembro de você sim.

Em uma breve leitura na diagonal em um dos contos me deparei com erros graves de português, não que eu seja um purista, mas assento com "c" me deixa tonto.

No final do seu conto, com essa conclusao "desconclusa" e o nível raso dos personagens, fico com a impressão de que ele foi redigido para velhas octaagenárias que pintam o cabelo de vermelho e dariam tudo para uma noite de prazer com Sidney Sheldon. Mas provavelmente o que eu menos gostei do seu conto foram as comparações, que agora( 2h da manhã) estou sem saco de procurar.

Beijos,
D

Mariana Bradford disse...

É, eu tento, fazer o quê...

:P

Anônimo disse...

Mariana, sempre me envolvo com seus textos de uma forma surpreendente, e no final me surpreendo com a capacidade que você tem de descrever o que imagina. É fácil e prazeroso de ler, é muitas vezes cinematográfico, imagino este conto por exemplo, como um curta-metragem. Se é isso que você nos dá com apenas 17 aninhos de idade, imagina o que está por vir quando obter mais experiência. Parabéns pela estréia, querida . ;*

Anônimo disse...

meu comentário será breve, ao menos aqui. mas aqui, ó: http://zemaribeiro.blogspot.com/2006/07/tema-livre-fico-critrio-delas-ou-o.html
abração!

Cris disse...

Ei, Mariana, adorei, você escreve muito bem.Você escreve e isso é tudo,vai fundo...
Beijos,
Cris C

cris braga disse...

Bacana o texto...escreve muito bem...beijos

Anônimo disse...

Mariana,vc escreve muito bem !!
Parabéns.E com sua idade,principalmente!!!
Bela estréia....
Mari