CAPÍTULO 2/ PEDRO



Seda. Juntar a erva. Enrolar o baseado. Lamber a ponta. Acender. Puxar. Prender... nunca senti uma onda tão boa. Que horas são? Como é que é o seu nome mesmo? Pedro está perdido, faz parte da famosa geração perdida. Que usa drogas assim como os hippies usavam, mas não sabe o significado de um ideologia. Que acha que o sexo deveria ser livre, não por sua essência de libertação, mas pela simples vontade de transar. Que fuma, bebe, transa, dança, manda lança, esquece as coisas. Esqueceu de pagar a mensalidade da faculdade de novo, e por isso vai ficar sem mesada esse mês. Já não era mais tempo de mesada, Pedro deveria trabalhar, mas isso é um fardo que ele evita carregar.
No seu quarto tem um cofre atrás das revistas de surf. Nele, são guardados seus maiores segredos, umas gramas de maconha, green e skank. A foto de sua namorada é enorme e ocupa a mesa de cabeçeira inteira e Pedro não dorme sem antes olhar. O quarto é arrumado, aquela limpeza de quem nunca usufruiu direito. Um dos únicos objetos sentimentais no quarto é um presépio antigo, de madeira, herdado dos avós por parte de pai. Foi a única coisa que ele quis pegar na partilha de coisas depois da morte. Fica no canto esquerdo da estante mais alta, e quando ele se sente só, é para lá que ele olha. A foto dele com seu pai fica no corredor, em frente a porta do quarto. Assim, todo dia Pedro pode abrir sua porta e ver o pai, como ele era, com o sorriso de um pai orgulhoso em cada comecinho de ruga do seu rosto de vinte e sete anos. Rindo, ajoelhado no jardim da casa abraçando Pedro; é um close destes que tem uma sutil magia, a expressão de um sentimento que foi tão forte que uma máquina fotográfica conseguiu registrar. O garoto gosta de ter seu pai assim, registrado na parede que o próprio mesmo pintou. Ele lembra do dia em que penduraram esse quadro. Passou até a dormir de portas abertas, dizia que assim estaria protegido.
Seus pipes para fumar ficam na gaveta de cuecas. Mas quando Lucimar vai limpar a casa na sexta-feira ele leva pra aula com ele. Não se pode prever o futuro, mas Fatima sempre soube que seu filho Pedro iria se estragar. São três e quarenta da tarde, Pedro deve estar chegando da faculdade, ele sai as três, estuda perto de casa, mas adora ficar conversando com seus amigos na saída. Paquerar meninas, tomar um chopp, sabe como é, todos tivemos vinte e poucos anos algum dia. Pedro quer viajar o mundo, conhecer os lugares que ele só viu no cinema ou nos canais de tv à cabo. Quando terminar a universidade ele quer fugir para estes cantos remotos do planeta, fumar em paz, e queimar suas lembranças de infância numa ponta de maconha.

4 comentários:

nagual1985 disse...

Nao eh la um dos seus textos que eu mais gosto, ate porque eu queria ver voce escrevendo algo ultra religioso sobre o presepio..hahha..mas, sendo a boa escritora que voce eh, mesmo os seus textos que eu nao acho tao bons, sao bons a beca!

Eu ja morri de saudade, amor...agora estou so apodrecendo.

Te amo demais, Gabi!!

Bjos com gosto de terra,

Ga

nagual1985 disse...
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Anônimo disse...

mt bom o final

Anônimo disse...

hmmm... Fatima! Velha conhecida...
Não acreditei qd comecei a ler. Esse final é mto bom, mesmo.
bjaao