DA SUBJETIVIDADE DAS COISAS


De cócoras. Agachado sobre os calcanhares. Fisicamente desconfortável, músculos dormentes.

De cócoras. Recolhido, encolhido, dolorido, modo peculiar de sofrimento e cura. Humilhado, curvado, de cócoras - para todo mal um bem maior, um gesto romântico. Entregue.

A primeira coisa que me vem à cabeça, a respeito desta palavra, não é um pensamento concreto, é antes uma sensação. Quando penso, sinto primeiro, e o meu sentir é mais verdadeiro do que o meu pensar. Ocorre que, ao me deixar convencer pela sensatez, pelo raciocínio, socorro, meu eu virginiano fica feliz - pois deseja muito fazer o que é certo. Acontece que sou, sistematicamente, enganada por uma lógica ardilosa e quando dá tudo certo fico infeliz. Sou detalhista por prazer, perfeição é quase a minha meta, e este quase é o que me salva. Confesso que a imperfeição me atrai. O mundo íntimo das coisas me seduz. A subjetividade sou eu.

Estar viva me surpreende, a surpresa me desampara e o desamparo é a própria consciência da vida se manifestando. Chamo de avesso equivalente, esta igualdade entre desamparo e consciência cujo resultado é o contundente sentimento de se estar sempre à beira, desprotegido, nu. Fui levada a uma incansável busca pela reparação, pela acomodação do medo e me tornei cego, preso, os pés cravados em uma linha reta, tolhida, e dentro de uma matemática exata, feita de expectativas.
Sou uma pessoa fatigada porque tenho feito mergulhos no abstrato para compensar a vida construída sob o poder da lógica. Vivo de metáforas porque escolhi a razão para me proteger, neste equilíbrio contraditório, vivo de sonho mas penso a vida com uma certeza cartesiana.
Contudo, a desproteção continua, é um rio que se deve deixar correr, no qual eu deveria me banhar. Estou à flor da pele, estou em carne viva, estou por um triz. Preciso ser capaz da humildade, a humildade do não controle, de me enxergar um ser apenas que necessita, quando necessitar deve ser a absoluta aceitação da vida vibrando repleta de realidade.

Naquela manhã deixei que a lógica não fizesse nenhum sentido e se misturasse com a minha abstrata vontade. O que foi um segundo vazio de razão se tornara o auge do meu desamparo, o corpo todo fluía ausente e não importava mais o modo como, ou o porquê as coisas aconteciam, o meu estar era total e despretensioso, o meu sentir era real e avassalador, fui tomada por uma espécie de não eu. E o meu não eu definitivamente me libertou de mim.

7 comentários:

nagual1985 disse...

nao entendi q q cocoras tinha a ver.

cris braga disse...

Quando vc. escreve " quando penso sinto primeiro..." vc. não está sendo virginiana, vc. está manifestando a sombra do seu signo:peixes. Muito bom! Lindo texto! beijos

cris braga disse...
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cris braga disse...
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Anônimo disse...

Fica um pouco cansativo às vezes, mas no geral é muito bom, muito bem escrito.

Anônimo disse...

Muito bom! Uma das pérolas: o desamparo é a própria consciência da vida se manifestando..

Anônimo disse...

Cris,amiga,adorei !!!
Acho incrível como as minhas amigas sentem e escrevem assim,com esse autoconhecimento,sem ter precisado de 12 anos de análise e/ou nem fumar um.
Parabéns !!!
Só pude ler agora,pela conjuntivite.
Bjs
Ah,pensei até em alguns medicamentos homeopáticos,pra qdo precisar....rsss