O câmbio do palhaço

Nesse dia ela acordou bem cedo. Brincava por tantos lugares, pessoas, que ficou suja, sem ter como se limpar. Mexeriqueira como só ela, ostentava o maior acervo de informações sobre a vida alheia, vidas das quais nem sabia quem vivia. Não dizia nada a ninguém. Também pudera, foi concebida ao mundo instituída de grande desgraça: era muda. Há quem diga que se abrisse a boca seria mesquinha. De qualquer forma, na condição de deficiente, era amada e desejada por todos.

Mas nesse dia ela foi subestimada. Na Copacabana inquieta de fim de tarde, ela tinha um companheiro, com o qual estava junta fazia três meses. Bastante tempo... Ao menos, suficiente para que chegasse o momento em que ele se viria obrigado a optar por desfazer-se dela. Muda, se mantinha calada. Humilhada, se mantinha humilde. Portava indignidade demais para dar opinião. Ele manuseou-a, então, pela última vez. Ela, que de boba tinha pouco, tinha adoração pelo toque suave de suas mãos, e quase fora feliz dessa última vez. Terminou a noite jogada sobre um balcão de bar, à mercê de um copo de chopp e um atendente que não tinha mãos.

O dia seguinte diferiu bastante da qualidade facultativa de sua companhia. Nesse, ela foi desejada e usada, também essencial, e ela gostava. Putinha? Talvez, no entanto nenhum de nós pode saber da terrível marca da prostituição. Ela sabia. Passou pelo padeiro, pelo flanelinha, depois pelo trocador de ônibus e até ao padre ela chegou – o mais tedioso deles, possivelmente. Passava o dia encarando o piruzinho do menino Jesus no presépio a sua frente – sendo finalmente carregada ao entregador de pizza, que a descartou e ela foi parar no circo.

Ela conhecia aquele cara. O careca ali, o palhaço. "Respeitável público". Suas feições se contraíram ao som da expressão, esgueirou-se para frente querendo rolar de desonra, em vão. Ele sorria para fazer os outros gargalharem, mas ela não se deixava seduzir. Bem o conhecia de outrora, quando ele acordava dia após dia e era pobre, suava como palhaço e ganhava uma ou duas moedas por isso. Espere, tal rotina ainda se repetia. Sob esse aspecto, ela pôde sentir compaixão pelo colega. Que açoitava a miséria em função do gozo de outros.

Então, pela primeira vez nos seus negros verdes anos de corrupção, ela teve a alma virgem. Conhecia tantos mundos... Tarefa árdua! Coitadinha da pobre moeda.

5 comentários:

Anônimo disse...

Tadinha das moedas! Gostei =*

cris braga disse...

Ufa...forte!Belo texto!bjs
*Bom nosso encontro.Vamos repeti-lo

Carol Aquini disse...

Eu quero um encontro!!! Estou com ciúmes de todas!!!!!!!!!

Cris disse...

Essa foi a mais criativa, o câmbio do palhaço foi demais!!!
Beijos
Cris

Anônimo disse...

Menina!! Vc sempre arrebenta...
Adoro o seu texto rico,criativo,denso.
Mais uma vez, parabéns !!
E já que todos falaram de encontros.....
Eu não fui convidada,mas encontros são quase sempre muito bons !!!
Podem me chamar,pois tb sou Mari...