
Se tivesse que contar a minha história começaria com um som, aquele que me marcou intimamente, que está presente no momento do medo, quando há um vácuo, e o medo se mistura com a coragem, formando uma massa estranha que me impulsiona a continuar. Trago esse som e ele ecoa nas decisões que demoram apenas alguns instantes para serem tomadas. Nos segundos que não se repetirão, ecoa em mim este som agudo e prolongado, o tempo perde o valor, muda, somente o som escuto e já não penso, ou melhor, penso: vou não vou, faço, não falo, falo mas não falo, sim ou não...o sim deve ser bom? O não é melhor...sei lá...vou dar apenas mais um passo...
O som que me invade - ouço, ouço, ouço - e a vida segue. O rufar do tarol está sempre lá.
Nesta hora tão solitária, quando sou um parcial juiz tomado pela dúvida, e na dúvida, o que está em jogo é a própria idéia que tenho de mim - não há a quem recorrer ou culpar, não há o mau conselho....é apenas o rufar, o tarol vibrando, o som que me remete ao momento crucial do próprio silêncio, do passo a mais, da mudança – o instante de ir em frente.
Devo dizer, nasci em Madureira.Menino simples fui, me alimentavam as visões de feitos grandiosos, destemidos - comia sonhos - e me sentia estranho ao pensar certas coisas que naquela vidinha de todo dia ninguém imaginava.
Aos dez anos vendia sorvete nas ruas deste meu subúrbio quente, e me sentia grande por aqueles lados, onde a vida realmente acontece. Porém, eu sabia que esse viver era pequeno para a minha vontade - a minha vontade - que não cabia na letra de nenhum samba, nem nos solos prolongados do meu cavaquinho. Porque a vontade é o maior sentimento do mundo.
Juntei uns trocados, resultado do meu comércio de sorvetes, e fui ao circo com minha mãe. Foi o dia da certeza daquilo que eu nem sabia direito mas pressentia – e somente mais tarde entendi - era a intuição. A certeza sentou ao meu lado, nas arquibancadas do circo, rangendo ao balançar das minhas pernas. Soube desde então que o meu negócio seria viver - e sentir integralmente - como um grande artista. No comércio, no samba, no circo pobre da periferia, na vida sempre.
Estava decidido. Ouvia aquela música, eu era um artista. Era o tarol soando e a vida sob a definição do risco, sob a emoção do improvável. A emoção que jamais se concretiza e, no entanto, se repete constante e diferente a todo momento. Terror, medo e vontade conciliam? Dão certo na vida, conciliam na arte? Sou eu no chão, na serragem, no meio do picadeiro, olhando para o alto, sou eu no arame? Quero ser um só.
Nesta tarde do circo, fui tomado por uma solidariedade triste e um firme respeito por essa gente que busca o aplauso, não apenas por vaidade, mas porque eles sabem - mais do que todos nós - o lugar onde querem estar.
E eu ali, temendo por aquele homem forte que caminhava em um fio, muito lentamente, sem nada ou alguém para protegê-lo. Meu coração foi se encontrando em outro - era eu - metido naquelas roupas colantes e cítricas, a subir pelo mastro, firme e concentrado, escondendo uma certa apreensão....de quem está no lugar mais alto, no fio muito tenso, anda, pára, se equilibra, o som do tarol reverberando...
A lona colorida me abraça, todo o circo me espera, e ainda me vejo, pequenino, estou a balançar as pernas e seguro a mão forte da minha mãe. Ela teme por mim, mas o som do tarol continua e sigo em frente.
Serei sempre este, serei sempre eu.
3 comentários:
Adoro vcs poetas e sua infinita Arte de juntar letras e criar.
Criar uma angústia que vira uma massa no peito,uma certeza que pode sentar ou uma lona que abraça,etc,etc.. E fazer com que eu tb me veja ali,olhando pessoas.
Lindo show,Cristiane. Lindo olhar sobre a Vida,amiga!
Ehehehheheheh!Mais um belo texto!
beijos
lindo, poetico.
bjus
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