SÓ AS MÃES SÃO FELIZES

Assisti à ópera "Alabê de Jerusalem" no Teatro Municipal. É a história de Jesus testemunhada por um africano que, no tempo presente, como Alabê - o contador de histórias - nos revela os detalhes que envolvem a profecia nazarena. Não farei uma resenha, pois confesso minha ignorância irrestrita das coisas eruditas e, ainda que o Alabê seja uma proposta popular belíssima, pouco conheço também da cultura africana. No entanto, como dizem por aí, nosso defeito pode vir a ser nossa qualidade – a falta de cultura me deixou os olhos puros, a mente aberta para receber o incrível trabalho criativo da ópera de Altay Veloso. Só uma palavra descreve o que me aconteceu nesta noite: comoção.

Tive um choque. A emoção incontrolável se espalhou lentamente e foi além, e fez com que me sentisse tocada. A emoção desconhecida, sem permissão adentrou, formou uma bagunça onde os significados mais primitivos descansavam, remexeu nos lugares onde a norma culta não alcançava. Mal desconfio onde o movimento começou, se foi na cena, no texto - ora na música atávica dos atabaques, ora nos acordes clássicos quando me embalou o longíquo e triste canto da Virgem Maria.

O que aconteceu comigo não foi cultural, nem pessoal, foi espiritual.

Alabê levita sobre o palco sua figura de paz. Nesta história de amor os orixás brilham, dançam e se misturam ao Rabi. O Profeta é a beleza do espírito e a verdade não está na doutrina, a verdade me fere e me revigora nas dores de cada personagem. São muitas as catarses deste teatro, neste templo coberto de humanidade onde os Deuses foram convocados.

E chega primeiro o nó que sobe pelo peito e, teimoso, até a garganta. Respiro, agüento, espero que se desfaça o nó que - maior e mais forte - desce na primeira lágrima.

A paixão de Judith, a devoção de Madalena, Barrabás aturdido pela nova vida, Judas perdido no amor, no desespero do destino que se cumpriu. Sinto o choro incontido e quente pelo rosto -soluços – em absoluto silêncio me entrego.

Vive a Mãe de Judas na bela voz, e na interpretação, da minha amiga Ninah Jo. A mãe de Judas, sem nome e marcada pelo parentesco, me revela a dor humilhada, os olhos corrompidos pelo peso da traição. E na busca pelo perdão a mulher entra arqueada, fraquejam os joelhos, ela vai ao chão, coberta de culpa, vergonha e medo. E Maria pergunta: achas mesmo que seu filho traiu o meu? Achas mesmo que seu filho entregou o meu? Pensas, que em toda parte, não sabiam o que ele falava? Por acaso não sabiam onde encontrá-lo?

Eu já não me entendo, meus olhos doem embaçados, não sou ninguém - não tenho nome e nem lugar - estou no palco, sou apenas mãe, um estado da existência.

A Mãe de Judas e Maria se encontram na compaixão e na dor que às mulheres se destina. Elas são aquelas que na angústia se fazem fortes, no sofrimento se tornam livres, livres para ir além do esperado, para serem virgens, para serem loucas, e poder chorar toda espécie de dor, aprender a escalar montanhas e não enxergar desertos – atravessar. Enfrentar o julgamento do mundo e se perdoar, e não desistir –recomeçar. Sábia, para silenciosamente se calar, aceitar que a vida gerada não é carne da sua carne - é filho - alma da sua alma.

Um comentário:

sensação de violeta disse...

Nossa vc me emociona.Me causa um riso de identificação e prazer na minha alma.A sua comoção foi descrita belamente.Foi pura.É NO fundo desse estado que perdemos a identidade, o lugar, assim tb se faz o teatro evocando o puro e colorindo uma nova vida.Saudades!