ANTROPOFADDICTED

Ele esbarrou. Empurrou os cacos para perto do irmão menor, que jazia sentado no carpete do sofá e babava num chocalho de brinquedo. Era apenas um bebê. Quando a mãe chegou à sala, não tinha como ralhar por seu vaso chinês – não com aquele que brincava debilmente no chão. Mas era assim, aquele cara: não tinha cerimônia em passar por cima de ninguém. Até mesmo de quem sinceramente gostava.

A mania vinha desde criança. Hoje, num apartamento espremido entre vãos de prédio e amargas fantasias, se tornara vício. Sentado em frente à tela do computador, na cadência de um vaivém de pixels de um vídeo qualquer, o movimento da imagem se repetia pela ação de seus dedos, envoltos num enrijecido e pulsante alento. Aos poucos, o que via em sua frente foi perdendo o foco. Fechou os olhos. Pensou nela. Não podia evitar, e já sabia que isso aconteceria – era a única coisa que o açoitava genuinamente. Agora ele a comia, ela que, desde a primeira, fora a única sobre a qual ele sentia dissabor ao praticar seu vício. Ela que, de inocência quase palpável, se atrevia a reverter o canibalismo que era dele e só dele. E agora era ela quem comia seus orgulhos, degustava cada pedaço, não, não, quem estava acostumado a ganhar a guerra dos egos era ele, virava-a de bruços e quase arrancava seus cabelos, agora, assim, e, num ímpeto de egoísmo, sentiu a solidão escorrer viscosa e quente pelos seus dedos...

O banho não foi demorado, no entanto ele livrara seu corpo de tudo que ela havia deixado nele que, agora, se misturava à água e escorria pelo ralo... Deitou ainda molhado na cama e por lá ficou. Os pensamentos não variavam muito. Percebeu-se roendo as unhas, comendo sua própria carne até o sabugo num delírio cego. Ao cabo de uns quinze minutos, decidiu que era auto-antropofagia demais para um sábado à noite só. Era hora de exercer o vício em alguém. Vestiu-se e saiu.

Tinha ido por indicação de amigos, era a primeira vez em que estava ali. Era, também, a primeira vez em que procurava comer uma prostituta. Dizem que quando estamos viciados, buscamos pragas cada vez mais pesadas para saciar-nos. Ele não precisava daquilo – beleza nunca tinha sido um problema, ao contrário, e a companhia de mulheres era algo que conquistava sem muito esforço. O local sufocava. Era bem verdade que, em algum lugar no âmago do seu caráter, ele cultivava um lado careta – bem tímido e pouco influente, decerto, mas, ainda assim, careta. Escolheu a morena que melhor rebolava e foram para um ambiente privado. Não foi difícil fazer o que tinha de ser feito: ali, ele pagava para receber em troca o que bem entendesse. Se ele quisesse subordinação, ele tinha. E isso não diz respeito ao sexo bruto, não. Se ele desejasse devorá-la sem a ousadia da outra, ele assim o faria. Foi simples.

Simplicidade era coisa que não lhe agradava. O relógio marcava uma e dezessete da madrugada, ele saía de lá eufórico e um pouco enojado. Começou a sentir o que mais temia; o que não podia sentir sem que seu ego se sentisse pisoteado. Admitiu, por fim, que precisava dela. Com ele. Ali. Agora. “Vamos nos encontrar?” era o que ele digitava na mensagem pelo celular. Um seco “Sim!” lhe veio como resposta. Aquela filha da puta, que nem desconfiava que mesmo antes do primeiro beijo deles, mesmo antes dele terminar o antigo namoro, lhe causava fome em todas as refeições. E por todos os dias. Era muita audácia tamanha frieza na resposta. Tomado de fúria, pegou um táxi e foi até a boate onde ela estava. Como de costume, formava-se uma roda de amigos em volta dela. Todos abutres, cultuando o que pertencia a ele. Pois eram dele os cabelos balançando em câmera lenta, era dele o par de olhos que reluziam mais que os lasers da pista, e eram dele os quadris que mais tarde ele agarrou com paixão e ódio. Puxou-a pelo braço e se entregaram, os dois. Era um dos poucos momentos em que se punham em pé de igualdade. Durou pouco. Ele pagou um motel, mas não transaram. Sabia que se isso acontecesse, ele perderia a guerra. Mesmo com toda a cautela, era ela quem devorava sem piedade, engolia tanto quanto podia e não fazia questão de digerir. Quase morrendo de overdose, com a cabeça apoiada na barriga daquela que significava tanto porto seguro quanto tortura, decidiu se entregar à sua clínica de reabilitação. Se doía ou não doía, ele só saberia depois.

6 comentários:

Cris disse...

Que bom te ler novamente, voltaste ainda melhor, êba!!! O título tá o máximo!!!

Anônimo disse...

Maravilhoso. Vertigem e lucidêz combinando com a fúria do amor a qualquer preço.

Vou agora linkar em meu blog.

Parabéns!!!


Beijo (quero ler sempre) ;)

cris braga disse...

Caraca...tava com saudades desse texto forte! Maravilha!! beijos

Anônimo disse...

tá escrevendo muito bem, mari
=)

Anônimo disse...

ôpa Mariana! Valeu! O rítmo é todo nosso e a sua criatividade ao expressar imagens e sentimentos é, (risos),antropofagicamente falando, saborosamente degustante. De certo, "comerei dela até cair" - de satisfação poética! Beijos.

Simone Botto disse...

Ufa ! Que ritmo é esse? Muito bom Mariana. bj