Tudo sobre minha mãe


Hoje de manhã fiquei com vontade de te escrever uma carta.
Lembro de você porque acordo e faço a cama na hora de sair de casa, como você me ensinou. Ainda como nos pratos que você comprou pra mim, dois anos atrás em Londres. E bebo nas taças de vinho que comprei pra você esse ano, quando você veio em fevereiro. Quando eu fico na dúvida, ou penso em alguma coisa, eu mordo a unha do dedo mindinho, assim como você. Agora o meu cabelo esta mais curto, uma pena que você não esteja aqui para ver. Não quero viver de distância, como naquele livro que compramos, da Clarice Lispector e do Fernando Sabino.
Por aqui as coisas vão bem, eu deveria estar estudando mais, deveria estar comendo menos, mas suponho que alcançar estes ideais são dificéis. E ninguém nunca consegue. Gostei muito de ouvir a sua voz ontem a noite, me da tristeza de pensar na distância, das coisas que não podemos acompanhar. Penso em 1971 e como você conseguiu ficar longe do vovô e da vovó por tanto tempo. Hoje é Halloween aqui na Inglaterra, me faz lembrar dos anos que eu fazia trick or treat em Londres, lembra? Aqui perto da minha casa tem um rua que tem uma fileira de casas iguais a de Grazebrook road, com aquela varanda no segundo andar, a garagem ao lado da porta da frente, o jardim na entrada. Imagino que criança mora na janela do lado direito do terceiro andar, que brigas, que noites dormindo ao som de xuxa, que bichos de estimação ela tem. Me da uma tristeza muito grande.
Usei a máquina de lavar pela primeira vez semana passada, depois de dois anos morando fora eu finalmente consegui lavar minhas próprias roupas. Só sei lavar de um jeito, mas já é alguma coisa, e sei que você vai se orgulhar. Perto da minha mesa tem uma foto de ipanema, lembro da altura da Nascimento Silva onde você para o carro, da Itália onde a gente come sorvete, de como eu sempre te falo que eu prefiro o Mil Frutas do Jardim Botânico porque tem sorvete sabor cheesecake. Jardim Botânico me lembra todas aquelas voltas de carro pós-Tita aos domingos, ou aquele dia que o Ga viajou que a gente foi pra casa dela. Me lembra quando você virou sócia do Jardim Botânico e a gente nunca apareceu lá. De quando você me deixava na Globo ano passado. De quando a gente vai pro clube e você passa horas nadando e eu fico pegando sol. Das vezes que a gente foi comer salada no Fazendola pra depois comprar brownie no caminho pra casa.
Imagino o que você esta fazendo agora e lembro que você já deve estar em casa. Dá vontade de ligar. Mas eu não tenho sinal. E já liguei demais do meu celular essa semana. Quando eu quero lembrar de você eu escuto Life on Mars, escuto Air do Bach, escuto o cd que você fez pra mim quando eu vim morar fora. Na minha frente tem uma foto nossa em Madrid esse ano, você esta com aquele brinco preto que eu te dei de natal ano retrasado. Você iria reclamar que algumas das blusas no meu armário precisam ser passadas. Você iria mandar eu passar menos tempo no telefone. Descongelar o peixe pra comer no jantar. Jogar fora as flores porque elas começaram a murchar. Iria pedir para ver Beleza Roubada comigo de novo porque você diz que eu te lembro a Liv Tyler no filme. Iria mandar eu parar de tentar ler cinco livros ao mesmo tempo e me concentrar num só, como a biografia da Frida Kahlo que eu até hoje não terminei. Quero aprender a definir palavras como você. Quero aprender a sublinhar as partes mais bonitas dos textos, como você faz. Estou com saudades da fonte.

2 comentários:

cris braga disse...

Muito lindo e emocionante.
Amei ter lido! beijos

Anônimo disse...

Minha filha adorada, o tudo sobre nós é o que há de mais valioso na vida para mim - e o que faz aflorar os sentimentos mais puros, mais bonitos, e os mais indefiníveis - porque transcendem os limites do verbo.
Muito lindo e moving o que você escreveu...
Te amo mais que tudo
Um beijo enorme